Havia os ciclos das estações e as noites de luas.
A casa que habitávamos tinha 3 lados, um deles, o do meu quarto, era virado para o nascer do Sol e o nascer da Lua. O mar era ao fundo do caminho dos pinhais. Nesse tempo e lugar, levantava-me muito cedo, pelas 6h da manhã, com orvalho ou chuva, tempo bom ou mau, eram 2h horas de caminho.
Passados 10 anos às 7h da manhã já "se estava" a polir metais, esfregar átrios, a distribuir lençóis e toalhas.
Aconteceu-me o mesmo 20 anos mais tarde, trabalhos de periferia das cidades. Não posso dizer que apreciasse fazê-lo, sempre fui uma alma da noite, mais pensando e sonhando dentro dela que durante o dia pleno.
Quando os deveres, as inquietações, as saudades, pareceram ritmos de coração descontrolado e que era forçoso disciplinar na vida corrente e aparente. O fim da noite dava-me sossego.
A propósito do PPP da semana passada, lembrei as minhas madrugadas. As minhas luas de céus vários, alguns cegos-outros de aventura, janelas de hotéis, de hospitais, de varandas, de horizonte cortado rente ao olhar, manhãs de aeroportos, madrugadas de praia, de prazer-ou-trabalho e insossego.
"Alta ia a noite... e mais alta ficou porque se resolveu ir seguindo o eclipse total da Lua, desde a 1h até às 3h da madrugada. E que belo espectáculo, num lugar tranquilo, de largos horizontes e com pouca luz artificial. Vinham-nos à memória as figuras ingénuas dos livros de liceu, de como percebemos a posição dos astros e "o cone de sombra" que, afinal, era projectado por nós todos, com mares e terras, defeitos e virtudes: a Terra."
Se e quando, as luas tinham o encanto dos lugares conhecidos e pacíficos.
Hoje também lembrei as noites, não só essas mas outras.
Há muitas luas, como pedras-como flores-como estátuas-como pinturas-como quadros-como palavras caixas.