(Este assuntonãoésobre comida; é, uma vez mais, sobre sentimentos obscuros)
O sável está pendurado num gancho (esquecendo que está morto), goteja do seu interior vermelho que não vemos. O peixe veio do mar, andou e nadou, volteou pelo rio acima, contra corrente. Para desovar, cumprir leis da sua natureza.
Acaba frito em postas fininhas: que trabalheira para tão pouco resultado! Agradar ao paladar sazonal: quem diz paladar diz "aos poderes e haveres instituídos", do mais forte, do mais esperto.
Deixou-se apanhar nas malhas duma rede imprevista.
Alguns safam-se - continuam a espécie. Apesar das barragens.
Poderia descrever "a vida de um sável que acaba frito, apesar de tanto ter tentado fugir ao destino normal dos peixes, empregados e afins". Mas isso sou eu, com as minhas toleimas - ou existe outro ego gémeo que está sempre a encontrar similaridades. Não invento: sinto o peixe.
Com esta curiosidade de perseguir traços, fui ver: antigamente (é mais um peixe em vias de extinção e ameaçado pela poluição, etc) chegava a subir o Reno por 850 km, do mar do Norte até Basileia...
Pronto, está visto que aqui nadam menos e vai havendo sável.
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Nesta ocasião Fevereiro/Março, há décadas atrás, íamos à Ribeira, eu e o meu pai. O sável chegava ali mesmo, ao cais, pelos pescadores que se afadigavam durante a noite - um mar-rio de peixes prateados, vivos cheiros e vozes, na discussão dos peixeiros e (pobres, era um peixe de pobres) compradores. Trazia-se então, a pé, enganchado nos dedos, exactamente como está pendurado na fotografia. Vejo-nos a subir, a subir o Porto antigo com o sável pendurado, eu quase do tamanho dele.













