terça-feira, abril 13, 2010

"Coisificar"








Sentemo-nos então meu amigos
à sombra de árvores velhas
frente ao mar, frente a África
(onde correu e corre, cá e lá, o sangue nosso)
Sentemo-nos apenas serenos,
não coisifiquemos todas as coisas,
as relações, os sentimentos

(aos comentários dos meus amigos conhecidos: eu ia lá mas perdi-me por aqui:
hei-de voltar.)

quinta-feira, abril 08, 2010

"Olho de Gato"


"Saber demasiadas coisas sobre os outros põe-nos sob a sua alçada, ficam com pretensões sobre nós, somos obrigados a compreender as suas razões para fazer coisas e ficamos enfraquecidos"

Margaret Atwood, em "Olho de Gato", Publicações Europa-América, Colecção Século XX
(...!!! confiei no tradutor e no revisor: é "SOB a sua alçada" e não SOBRE, obg J.)

segunda-feira, abril 05, 2010

A quinta (pequena) de A.








"Estou mesmo a precisar
de uma injecção
de essência de rosas"
Poema de Jorge de Sousa Braga em "Poeta Nu", um homem do Porto, um homem de época conhecida.

Havia num repente em mim um
"há que tempos"

... que não andava num caminho com camélias de tocar
- serem acessíveis como minhas e sem nome de família -
e sabe-se lá porquê? são coisas que se sentem ao encontrar couves belas como flores, bichos com nome, "chamar os bichos" e eles virem, estar ao lado duma pessoa que pega numa lesma como eu pegaria, ou num pombo recém-nascido. Ah e as ervas...
Todo este silêncio pesado-amaciado por uma "paixão dos sentidos", pelo tagarelar entre os cheiros de terra, olhar de monte, toque de pedra, som de harmonia.

sábado, março 20, 2010

A Kitty


Quando chegar
a casa
a minha gatinha não se vai queixar da minha ausência.
Eu sentirei a sua.

terça-feira, março 16, 2010

Robínia e amores







Pela veneração que tenho pelas árvores, todas as árvores.
Que haveriam de ter o seu espaço.
Ao ler o artigo de Susana Neves na revista Tempo Livre - a propósito de mais um corte higiénico no Jardim do Príncipe Real -, recordei-me da "acácia do Jorge" (filho de Camilo Castelo Branco) e uma visita que fiz a S. Miguel de Seide.
Uma Casa-Museu onde se sente a presença viva de quem a habitou: Camilo Castelo Branco e sua mulher Ana Plácido.
A vida aventurosa (e desventurada) desta relação é conhecida. Mas o que é original é uma das vivências de Ana Plácido no contexto da vida do escritor: diz-se que se sentava, com o seu charuto, por trás duma janela ou num banco de pedra do quintal, falando com a gente da aldeia que por ali passava.
De tantas histórias e enredos que ali ouviu contar, muito ficou escrito/descrito nas obras de Camilo.
A árvore sobrevivente ainda lá está, ao lado da escada de acesso à porta principal: a Robínia, a "acácia do Jorge".

Estranhamente, ao ir ver alguns apontamentos dessa minha visita, dei com os olhos na data de nascimento de Camilo, em Lisboa: 16 de Março de 1825, ou seja, há precisamente 185 anos!

quinta-feira, março 11, 2010

O peixe









(Este assuntonãoésobre comida; é, uma vez mais, sobre sentimentos obscuros)

O sável está pendurado num gancho (esquecendo que está morto), goteja do seu interior vermelho que não vemos. O peixe veio do mar, andou e nadou, volteou pelo rio acima, contra corrente. Para desovar, cumprir leis da sua natureza.

Acaba frito em postas fininhas: que trabalheira para tão pouco resultado! Agradar ao paladar sazonal: quem diz paladar diz "aos poderes e haveres instituídos", do mais forte, do mais esperto.
Deixou-se apanhar nas malhas duma rede imprevista.
Alguns safam-se - continuam a espécie. Apesar das barragens.

Poderia descrever "a vida de um sável que acaba frito, apesar de tanto ter tentado fugir ao destino normal dos peixes, empregados e afins". Mas isso sou eu, com as minhas toleimas - ou existe outro ego gémeo que está sempre a encontrar similaridades. Não invento: sinto o peixe.

Com esta curiosidade de perseguir traços, fui ver: antigamente (é mais um peixe em vias de extinção e ameaçado pela poluição, etc) chegava a subir o Reno por 850 km, do mar do Norte até Basileia...
Pronto, está visto que aqui nadam menos e vai havendo sável.
***
Nesta ocasião Fevereiro/Março, há décadas atrás, íamos à Ribeira, eu e o meu pai. O sável chegava ali mesmo, ao cais, pelos pescadores que se afadigavam durante a noite - um mar-rio de peixes prateados, vivos cheiros e vozes, na discussão dos peixeiros e (pobres, era um peixe de pobres) compradores. Trazia-se então, a pé, enganchado nos dedos, exactamente como está pendurado na fotografia. Vejo-nos a subir, a subir o Porto antigo com o sável pendurado, eu quase do tamanho dele.

quarta-feira, março 10, 2010

Vermelho agitado


da ira.
Por tantas promessas de novo sonegadas e distorcidas.

Como uma gravidez-vida
de felicidade-esperança

e de fala mansa
interrompida.

Vermelho avulso



dos apontamentos entre casas

num mar de qualquer ocidente



na candura dos campos

e das faces dos anjos escutando os séculos



vermelhos perdidos quase

na praça "da rotunda do leão" ao fim de um dia e tantos anos


em improváveis plantas


gadanhas vermelhas do pensamento censurado



portas fechadas em silêncio

ou pontes vislumbradas



da inocência dos campos



ou os vermelhos eventuais.
Alegram ou entristecem, tal a diversidade-perversidade-verdade da cor.