sexta-feira, outubro 22, 2010

O Interior I



No afastamento para dentro do país
atenta-se no primitivo som, o mesmo, o do abandono.



No interior, a muitos quilómetros de um hospital próximo, a democracia partiu os pés e não é tratada: está manca e faltosa das suas gentes mais simples e genuínas.


Casos bicudos e baralhados


Os papões
e os leões das louças





Tanta economia de papel, tanta economia em catadupa!
Pergunto-me onde anda a democracia, pasmada nas rotundas de repuxo
nos multi-usos de bilhar.
Longe da escola básica, das necessidades primeiras, esquecida dos bens da terra, a democracia não sabe o a, e, i, o, u:
para,
pelas
e com
as pessoas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

O Interior












Metemos na estrada velha para lá da Barragem onde o rio se estreita, o Vale e outros horizontes para mais longe da aldeia. Encontramos a Senhora Bárbara, a pastar as suas 3 cabras e um cabrito:

uma cabra chama-se “Caldeirinha” e “dá um litro de lête por dia”, outra é a “Branquinha”, filha da maior e mais arisca, o cabrito “é para comêre”. O homem trabalha “a juntar perdizes para os patrões” virem caçar no dia 11 de Outubro.

Não sabe ler, não sabe nada além “daquilo” ali: nasceu em 1941 “no ano do ciclónio” como lhe disse a mãe. Viviam em cabanas cobertas com palha – “uma miséria que nem sei”, diz-nos, "as solas dos "sapatos eram de pneus velhos", agora "sempre vamos tendo uma reforminha".

Lá viemos embora, cada um à sua vida: nós pela estrada, ela pelos pastos adiante, cantarolando.

sexta-feira, outubro 15, 2010

...de entrar na pressa das chegadas









Atravessar tantas, as pontes...

No lugar das águias da manhã, estremece o véu da Via Láctea à noite. No meio dum céu amplo e profundo, assim voam em círculo as lembranças dos meus amados.
Gostaria de pensar nos espíritos dos meus (e de todos) mortos, brilhando os seus olhos no tempo, vendo-nos com algum modo de amor, ou saudade, ou arrependimento, seguindo-nos nas veredas terrenas.
Mas escavacaram a Lua, sondaram Marte, espreitam os anéis de Júpiter, descobrem todos os satélites de Saturno. E também em nós, fica um buraco negro de não-saber.
Talvez para lá deste sistema, o solar, estejam os olhares que recordamos: reparo nas tantas estrelas, assim esperançada!
Pela noite alta, ficam-me os olhos em choro e pedra, manietados, o gesto preso como nas velhas estátuas.

sexta-feira, setembro 17, 2010

...de sair à pressa das despedidas




Nota para os posts dos dias 15, 16 e 17.9: foram surgindo na mesma ocasião, último dia de praia e, entrementes, saída para o campo. Os três anteriores e últimos deveriam ser ordenados ao contrário e lidos de baixo para cima; mas eu não soube fazê-lo, nesta (a)trapalhada minha de querer que as fotos se pensem e se reflictam nas palavras
, tal como me surgem na minha tipografia-típica interior.

Sem tempo para ler os meus caros habitués, virei talvez nas primeiras chuvas - e quando os dias pingarem sobre a esquecida e ardida terra, serei a "sempre vossa atenta leitora". Certamente com-o-que-penso.com.coração.

Deixo os batentes - de novo - em outras portas.

Praias e (a)deuses (cont.)








A praia sossega respirando ondas pequenas como suspiros.
Descansa de tantas tristezas alegres, segredos cruzados, pasmaceiras ou inteligências distendidas, lixos vários, palavras e liberdades avulso.

Dos mil passos e mil olhos e mil vozes e mil gritos suados.
Finalmente silencia; e os ventos são como um rebanho ordeiro.

A praia simplifica-se nos sons, nas cores, e contam-se miúdos os seixos, aquietam-se as poças de água, brilham as marés vazias, rezam os serenos deuses nas catedrais de pedra.

E re-digo que me re-ligo a tudo - a todos - o que dá paz: "até sempre".

quinta-feira, setembro 16, 2010

Praias adeus(as)








O sol oblíquo de Setembro finda-se em silêncio como um pequeno fósforo.
E enfim, acariciam-se mutuamente ondas e nós
dedos na água
dedos no vidro:
um peixe de aquário
ignorante do espaço do mar que não conhecerá nunca.
Mas ciente do gesto, o peixe; mais que a gente.

quarta-feira, setembro 15, 2010

(a)deuses






***
Onde os pequenos seres dos montes têm a ingenuidade dos dias
(antes da caça e da algazarra; e das botas e tiros e cães e motas e jipes)
eu irei descobrir um rasto de mar
fóssil. E ficar pasmada com a cor quase sangue dos sobreiros tirada a sobre-a-pele da cortiça.
E com a água das fontes. E mulheres de negro sentadas ao entardecer
sobre o murmúrio dos campos.

Ligo-me a tudo isto "até sempre".