sexta-feira, junho 22, 2012
Mar e mar - ir ao fundo e voltar
Ah... mar sempre diverso
tão perto me estás e tão longe me ficas.
Como gente.
Falas, murmuras, suplicas, ficas furioso, escondes-te, és traiçoeiro, és manso, és doce e bravo.
E mentes quando dizes "eternamente"; ou para sempre, é o mesmo: recuas ao menor indício de luas.
Voltar não se volta, ao mesmo mar.
"Sleep not, dream not; this bright day
Will not, cannot last for aye;
Bliss like thine is bought by years
Dark with torment and tears"
(Brontë Poems, "Sleep not", 1846)
quarta-feira, junho 13, 2012
Pais
Estes foram os meus pais: eu estou lá. Hoje, estou eu aqui e eles sorriem ao longe de mim, um para o outro, uma e outra vez, tal como viveram.
Eu... penso, logo
existo.
(numa pressa da net que vou estando fora, ainda)
domingo, maio 20, 2012
De longe de faz (de conta) perto
...este país tão lindo - tão diverso
e tão diferente do que falam em Lisboa, os(es) croques, ou melhor os craques, da economia, da bola e outros!
Esta gente sem fundos, com terra e sem nada,, uma laranja, mil laranjas e ninguém para as colher!
Este lugar de sul.
Esta paisagem imensa, dos bolos artesanais, do arroz de lebre, de xarém de conquilhas.
Os estrangeiros de mil vozes diferentes, espapaçados ao sol, camarões cozidos saídos de pátrias de "forte economia" e fraco sol.
O medronho, o medonho de não amar esta terra. Os homens de fato.
De facto, não são homens mas palhaços.
terça-feira, maio 08, 2012
Viagens para que vos quero!
Acabo por agora as minhas cogitações, ligações. As mais recolhidas num "click"; mais as lembranças das "viagens à solta"; e este "bets" que se cruza e toca em todos os outros. Que sendo eu, no entanto se afasta cada vez mais do real, pé ante pé ou dia após dia.
Como um desenho em zig-zag do que vou/sou/sinto.
Cadeiras de silêncio. Alguma luz de "clarabóias". Emaranhados.
Pés ou chinelos ao caminho.
E lo co movo-me.
domingo, maio 06, 2012
Mãe
..."Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves."
Poema à Mãe, de Eugénio de Andrade
(onde te queria, um lugar sem lápides mas com terra e rosas; onde te pudesse pensar, solta a mente, sem o terror de te saber onde)
quinta-feira, maio 03, 2012
Recordações de museu
... onde encontro a oração, a praga dos meus tempos.
Deste mês de perdas.
Nas batalhas dos silêncios - tantos se calaram - e nas guerras de ausências - tantos saíram.
Levo este Maio comigo,
e murmuro o que me (re)tiraram e o que foi apagado.
Nem uma lápide de bronze ou pedra chegaria.
Nem o resto da vida devolvida.
segunda-feira, abril 23, 2012
Com as palavras
Das escadas que não sei donde vêm, abre-se uma porta que não sei para onde vai.
Um bailado parado, uma fila de gente que espera.
Assim me são as palavras, breves e leves, sem nenhum sentido aparente, só um pó de passos-gestos passados.
Elegia de um ser que parece e não é."
Fantasmas
Tantas as vezes que me faltam as palavras simétricas da realidade e recorro aos livros!
Aos que me passam agora, os por que passei. Como se o emparedamento se partisse.
Num repente e como as formas de criança onde na praia se faziam figurinhas de areia, aparece uma luz que me ilumina o dia. Aparece um sinal ou um aviso: este surgiu-me pela proximidade dos 38 anos de Abril.
"Mergulhados no medo e na suspeita,
a mente agitada, os olhos aterrados,
tentamos desesperadamente inventar saídas,
planeamos formas de evitar
o perigo evidente que tão terrivelmente nos ameaça.
Porém estamos enganados, não é esse o perigo que está para vir:
a notícia estava errada
(ou fomos nós que não ouvimos, ou não a percebemos bem).
Outro desastre, que nunca imaginámos,
de repente, com violência, abate-se sobre nós,
e, apanhando-nos desprevenidos - agora é tarde -,
atira-nos por terra."
Constantino Kavafis (citado no livro de Panos Karnezis "Pequenas grandes infâmias" edição Cavalo de Ferro.
Fotos da exposição Festival Internacional de Cultura Urbana, Palácio Santa Catarina, Nov. 2010
quinta-feira, abril 12, 2012
Assim somos
... e pousamos...
nas águas das nossas palavras ditas e nas guerras dos nossos silêncios.
A vida é apenas um reflexo atrás de nós.
Belo se assim o quisermos fazer.
Ou soubermos ver.
(no PPP em 12.4.12)
O que me lembrou recuados anos 90, "O Pêndulo de Foucault" de Umberto Eco, pág. 553, onde li
"...que no momento final, quando a vida, superfície sobre superfície, se incrustou de experiência, saberás tudo, o segredo, o poder e a glória, porque nasceste, porque estás a morrer, e como tudo poderia ter sido de outra maneira.
És um sábio. Mas a sabedoria maior, nesse momento, é saber que só o soubeste demasiado tarde. Compreende-se tudo quando não há mais nada a compreender."
sábado, março 24, 2012
Ampulheta
Mesmo que eu fosse de bronze mármore ou de pau mas tivesse sangue nervos e ossos,
ainda assim sentiria as dores,
debruçada nos desenhos (meus) mentais, reconstruindo as histórias em contornos imprecisos,
usando a areia do tempo antigo,
do Molhe, do Castelo do Queijo, de Salgueiros, da Aguda, de S. Pedro de Moel.
E tantas outras que ficam a sul de mim.
(de não haver interlocutor desses recuados anos mas e apenas camélias
- e um monte difuso de roupa que não usamos mais)
sexta-feira, março 09, 2012
Antes
Era uma vez uma ave comum.
Era uma vez uma presença habitual.
Era uma vez uma ave e um corpo que se afastaram
pelo céu-praia-terra adiante.
(chamava-se mãe e era o nome/chamava-se ave e era o vôo)
Se mais uma estrela brilha? Não sei mas gostava de acreditar.
Falta-me tempo, falta-me ar.
Vou para eles.
Ah... o tempo, dizem, o tempo.
terça-feira, março 06, 2012
Palavras de livro, hoje
Palavras de uma mulher para o homem que a cortejava, do conto "Sedução" pág. 123, Edição Cavalo de Ferro, livro "Amores Feiticeiros" de Tahar Ben Jelloun, escritor marroquino de língua francesa:
"- Então pior para ti. Eu não preciso de dinheiro. Preciso de sentimentos, de palavras, de palavras que é necessário escolher, de flores a que se chamam cuidados, de rosas a que se chama presença, de sonhos que habitam as árvores, de canções que fazem dançar estátuas, de estrelas que segredam ao ouvido dos amantes... Preciso de poesia, dessa magia que incendeia o peso das palavras, que desperta as emoções e lhes dá novas cores. As palavras escolhem combinações inesperadas e proporcionam-nos embriaguez e alegria, transportando-nos a lugares que os homens esqueceram. É disso, meu caro, que eu preciso.".
Preciso da humildade e do orgulho de escolher as minhas flores.
De palavras que aquietem.
Hoje.
