segunda-feira, junho 06, 2011

Cavalgar o futuro

Quem não tem cão, caça com gato.

Colcha de seda bordada a ouro séc. XVIII, representando a árvore da vida (Museu Penafiel).
E a árvore-vida, continua!



Cavalguemos o sonho!


Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo demais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.


José Saramago in "Os Poemas Possíveis"

- tão actual hoje como sempre -

terça-feira, maio 24, 2011

Maio no fim dele

These legs are made for walking
eternaly

Não haverá tempo para saber, ou ler, que aqui se representam os oceanos...
Desejados.

Sinto-me vigilante mas sossegada.
Meu olho crítico enganadoramente entre penas.

Atenta é às pequenas formações dos muros.
Chãos.

Às variações do horizonte mais largo.



(Como as minhocas depois da chuva)
Há conversas que se enroscam e não levam a lado nenhum.
Salubre.

Nessas ocasiões, o melhor é colocar o coração a trancar a porta
de casa.
E sair.

terça-feira, maio 17, 2011

De Maio as vontades








PRECISO urgentemente de um lugar
uma casa pousada na terra
onde o caminho para ela fosse uma aproximação às rosas
fortes.

Mas, ao mesmo tempo reparar na fragilidade dos lírios
bravos.

sem fichas nem pilhas nem intenções várias
horários de cumprir
longe de memórias de cidade
sem gentes populosas

Mansa a mente

terça-feira, maio 10, 2011

Acontece

Vamos lá a arejar o mofo das palavras, deixar de nos azucrinar sempre com a mesma conversa da pobreza, da modéstia, da virtude e da poupança. Comecem, meus senhores, façam o favor de nos contarem como quando e onde!

Ou foram passar uns dias à "segunda casinha" e deixaram o papel na porta?




"... que de tantas notícias e agravos,
fico sem pernas nem rabos"

(e num ápice me aparecem as imagens, saltam do tempo, saltam das pedras que falam)

(se não fosse a infeliz e antiga data, pareceria que todos agora se reúnem e debatem de-bates de-bitam bitaites
para "nos melhorar", na avenida, da larga e deformada informação que servem, todos os dias, todos os dias)

Caramba, todos os dias e ainda falta tanto para "a pausa para reflexão"!"

quarta-feira, maio 04, 2011

Vim aqui





... estes anos,
quase 500 vezes.
Com a brandura dos ninhos a esperança das aves
ainda por nascer.
Nem poemas nem dissertações:
apontamentos.

Das redes e dos bichos, das interrogações, das memórias.

Talvez um dia me volte só para o chão e me debruce nas flores
nas ervas;
atentamente

e nada disto tenha importância.
De maior.

Da confusão dos tempos







Vamos ter de aprender a respirar sem guelras.

Em breve passará Maio e as estações correm fora do comboio.
Parece nem haver mais paisagem fora da linha que (nos)traçaram.
Parece que nem se sabe o que se há-de pensar: será que querem (quem?) que a gente não saiba pensar - nem em quê. Será.
Truques: devo dizer que já vi este filme; em longa ou curta metragem, em episódios, em reposição. Os extras, os duplos, a darem cambalhotas pelos actores principais.

Depois destas dias de bocas - digo mesmo: lábios enrugados e oblíquos - e presunções pervertidas
ameaças suposições mentiras e descalabros de linguagem
e caras (re)vertidas
dei por mim a encontrar Bordalo, a mordacidade;
e achei-o escandalosamente actual.

domingo, maio 01, 2011

Os dias da cor




E os cravos de 25 de Abril chegam sempre a Maio.

Há uma infinita saudade da ingenuidade libertadora, desse fluxo de um lado para o outro, da avenida. Da alegria nas cores da gente.

Com a certeza hoje que nos bate coração adentro, sentimos, dizemos:

viva o 1º de Maio!

quarta-feira, abril 27, 2011

De onde?

Uma pata que agarra e fere.
Das ameaças, do país destas gentes e das outras.

Sentar-me num lugar que nem sei bem onde

... a ver o branco que no mar se põe entre a luz e a sombra.

Surgem-me fotografias do nada.

Já o escrevi - se não o fiz, pensei dizer - :
nem sei se imagino ao olhá-las
se elas olham para mim e me fazem pensar nas coisas
que me estão a flutuar
inconscientes.

quinta-feira, abril 21, 2011

Dia no quarto ou a cidade onde gosto de estar é diferente da cidade onde estou. Mesmo por dentro.



Nada lhe diz o deserto de cimento, nem a câmara, divorciada está do seu sorriso.
De costas.
Porque eles, sorriso e pose, se dirigiam aos pombos e às flores, aos canteiros que não existem.
As tendas de plástico e as grandes parangonas iguais em todo o mundo, também nada lhe acrescentam à bela imagem.
No princípio (do mandato) havia tulipas de todas as cores, caríssimas as pensei, importadas. (como se a gente se importasse com paixões sazonais destes políticos e dos chupa-chupas que oferecem nos intervalos).

Desde pequena que me cruzo com ela. Ali perto, era (é) o Banco de Portugal onde ia receber o ordenado dos Correios, com o meu pai. Havia tanta coisa imponente que me fascinava: um elevador-caixa que andava para cima e para baixo, na parede, com papéis; tectos altíssimos, bancadas de mármores coloridas, gente antiga à frente dos cofres, rostos de ambos fechados e carrancudos.
Mas e sempre - muito me preocupei com o avesso das coisas... - espreitava de joelhos num banco enorme, as traseiras dos edifícios. Mania que me ficou.

A menina sorri como a vi há muitos anos - também o meu primeiro emprego era ali perto.

Deseja andorinhas e primaveras e 25 mil esperanças de Abril a todos os que me "conhecem".

(diria mais, por causa de nos terem empenhado o futuro: 25 mil milhões de esperanças para dividirmos)

segunda-feira, abril 18, 2011

Noite terceira



Há madrugadas assim

a Lua enevoada tem cara e perfil de pessoa e há realmente um velho com um feixe
ou um mundo outro
eternamente às costas.

ou sou eu que me nublo e encurvo?

quinta-feira, abril 14, 2011

Noite segunda












E eis que na rebelde noite, no remexer a saudade dos livros e lugares,
do pensar nos ilusionistas do poder,
me surge o Homem da Terra, calcorreador de montes e humanidade.
(Adolfo Correia Rocha) Miguel Torga (1907-1995): médico de origem humilde e escrevedor ilustre das nossas décadas sombrias. Teve o gosto o dizer, fazendo: "...a única maneira de ser livre diante do poder, é ter a dignidade de o não servir".

Sentei-me com a meada da sua prosa, da sua poesia que criava um mundo sobrenatural, dos seus bichos, dos seus deuses da montanha, das suas pedras. E no caminhante que foi, reconheci como amava e sofria o mal do país que somos.

"...um povo que pelos séculos dos séculos teria de arrastar um destino próprio, a fazer milagres da pobreza do chão, das vogais da língua, do lirismo da alma".

Tínhamo-nos debruçado no Douro, rio e terras que tanto amava e donde antepassados nos vieram.
Mas foi aqui que o reencontrei, a uma mesa alentejana, numa aldeia de ruas azuis e ocres.
Pelas cinco da manhã, ainda conversávamos sobre o adeus da última estrela da noite.

E também senti a nostalgia da falta
desse lugar pequeno e imenso que é a terra do Sul.