domingo, fevereiro 17, 2008

Divagações









...sempre melancólicas, num domingo como é esta fosca tarde.

Sem vontade de responder/visitar quem leu e pensou e preocupou.
Pelas minhas palavras/fotos sobre o Bolhão. Uma pequena voz.

Há um silêncio ensurdecedor e, no entanto, ouvimos um homenzinho a driblar (sim, eu também conheço o futebol) sobre o que escreveu ou não, autorizações subtis escorrendo pelas emendas das leis, sobre favorecimentos que parecem e não são. Honras de telejornal, prime time.
É que não há direito, é que não há paciência que resista.

O Bolhão? Mas quê? Esperavam uma reportagem séria, serena, esclarecedora? Antes ouvir no esconso duma rua um qualquer homem do norte... e como diz o meu amigo escrevinhador
..."tudo isto é fado"...

Imagens à volta de.
Porque a seguir, viro-me para os santos.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Bolhão - a revisitar II (a alarmar)







Décadas de passeios renovados, sempre e todos os anos, nas férias dos que estão longe. De pais para filhos.
Catarina Portas escreveu uma crónica irrepreensível e sensitiva, no J. Público, sábado passado.
Na Wikipédia está esparramada a ideia peregrina - e muitos "links" de informação e alerta - do que pretendem fazer daquele lugar. Em vez de o limparem e renovarem decentemente, digo eu.

Vão pô-lo a render, a explorar por privados, durante 50 anos.

O programa de reabilitação prevê, além da graciosidade de deixar a fachada e demolir o interior, habitações de luxo, parque de estacionamento, hipermercado, centro comercial com lojas âncora (os nomes e os sabores do costume...) e, calcule-se, cerca de 3% de espaço para o comércio tradicional.

Com tantos políticos, arquitectos, engenheiros, artistas, negociantes... com tanta democracia e discussão pública, ordens e assembleias ... que posso eu dizer?
Deixar aqui a expressão da minha revolta.
Com algumas fotografias elegantes duma das minhas meninas de Verão.
E apontamentos: a beleza condenada dum emblema patrimonial da cidade.

Talvez queiram saber, os que por aqui passam, os que podem contactar e falar a mais alguém, que há um Manifesto Contra a Demolição do Bolhão (http://manifestobolhao.blogspot.com/).

Para nosso bem!
Para bem da nossa memória colectiva!

Bolhão - o mercado I









Mercado público desde 1839/51. Em Outubro de 1915, o belo edíficio projectado pelo arquitecto Correia da Silva, inaugurava as primeiras bancas e lojas do seu interior.

Não saberei fazer e escrever tudo o que me ocorre sobre este lugar que tanto frequentei.

Recém-casada e a viver perto da Baixa, ali e na Casa Chinesa, na Confeitaria do Bolhão e nas redondezas, se passavam as manhãs ou tardes de sábado nas compras da semana.

Fui vendo a minha cidade ficar mais velha, inóspita, crua e nua. Sózinha e dispersa.
Modernidades modernaças, ideias bacôcas.

Mais betão, mais alcatrão - mobilidade??? - , menos árvores, menos canteiros, menos relva, mais alumínio, mais lojas incaracterísticas, mais ruínas.

Menos pessoas.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Pueril *









Lagartixas, sardaniscas: no sol e sombra em paredes da minha vida.

Muitas vezes me (as)saltam as palavras.
Esta e só esta, hoje, traduz a efemeridade de um balão (ar) ou a lenta degradação do casco que foi barco (água).

Tempo pueril, o tempo do vôo como o do flutuar.
Ah... cavalos-ideias-ideais-pueris-à solta!
Reparei que "à solta" também me surge no apontamento abaixo...
Será, que é, uma expressão de força na alma em jaula.

* do velho dicionário:
"Pueril: da puerícia; que pertence às crianças; infantil; fig. fútil; ingénuo
(lat. puerile)"

sábado, fevereiro 02, 2008

Vivência III










Antídoto contra lembranças se doridas: a realidade à solta.
Legumes e outras coisas rasteirinhas, encontro-os exuberantes, sem rótulo nem embalagem.
Um alívio comprar cebolas e alhos a uma mulher sorridente.

Num horto re(galo)-me. Olho os bichitos nos olhos e leio os nomes das plantas.

A terra, a terna terra que não dorme e acena, resistente ao trânsito, ao lixo, ao mau gosto, ao barulho.

Ali ao lado da estrada, discretas, as alfaces, flores e laranjas.

Vivência II








Quanto gostaria de lá ser, estar, ficar, permanecer, continuar...
Vejo abóboras que se transformam em coches sob estrelas límpidas.

A casa. Recebe os últimos raios de sol. Fundo, um risco de azul-mar.
Tê-la, mantê-la para o meu silêncio ou canto.

Para que fosse chegada a Primavera esvoaçante ao pensamento.
E perceber, dia a dia, a rebentação tímida das folhas em secos ramos.
Sem ter que falar. Obrigada.

Ouvir em vendo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Vivência I









Há uma casa ... depois da velha e descaracterizada povoação.

Perdida na serra, ilha de cristal na macia encosta ao longe.

Simples casa-lugar, mesmo que entre chiquérrimos, gentes de fim-de-semana e silêncios aristocráticos só cortados pelo ladrar de cães.
Esses, também de raça, como os carros.
Saltito, eu. Se me chama a arte inerte na cidade, logo me acena a Natureza com as suas cores de apelo.