sexta-feira, setembro 16, 2022

Outras (infindáveis) memórias

Saudades da Serra. Que já não o é como era, densa, penumbrosa, castanheiros em flor, maciços e depressões formidáveis de tempos velhos, os Cântaros e o Vale Glaciar onde se vê brotar o Rio Zêzere.

 

Aqui o lugar que também não é assim, agora

A esquina da casa que descrevi num post anterior
As cores dos velhos tecidos
O inexorável caminho do combóio, a vida que anda empurrada pelo vapor das memórias

Foi isto que o baú me trouxe, de saída em Setembro.


quarta-feira, agosto 24, 2022

Na esquina do tempo

 

Por vezes, não muitas, vou para trás e rebobino os pensamentos, aqui sentada e debruçada sobre um passado comunicativo e envolvente.

Dezasseis anos me separam do "bettips" nos primeiros tempos. Neste caso, os primeiros posts que fiz, 2006, e as companhias que tive. Apareciam entre 6 a 60 comentários, muitos deles amáveis e profundos - pareciam - de variados lugares. Algumas pessoas cheguei a conhecê-las pessoalmente, em eventos de lançamento de livros ou simples passeios fortuitos, com muitas me correspondi.

Penso que gostaria de fazer "um livro", com esses escritos e algumas fotografias. Tudo o que escrevi eram, e continuam a ser, as minhas verdades, demonstram o meu interesse pela humanidade, pelas crianças, pela Natureza. Foram-se as pessoas, foram-se as palavras. Fiquei eu, neste limbo de interrogações silenciadas. E silenciosas.

Os guerreiros de Xian, em terracota, foram mandados erigir pelo 1º imperador da China, no final do séc. III a.C. . Estimam-se figuras de mais de 8 mil soldados, cavalos, carruagens, etc. Em cima, o cartaz da exposição, retirado da internet. Em baixo, alguns dos que tive oportunidade de ver mais tarde, numa exposição sobre eles, na Alfândega do Porto.

Em tudo isto me debruço. De como voam para longe as sensações, as recordações. As pessoas que alguma vez se conhecem ou se cruzam.

Numa das esquinas do tempo.


segunda-feira, agosto 08, 2022

Abandono

Há que anos por ali passava... Um palacete Arte Nova, do início do séc. XX. Foi doada pela tal Viscondessa à Câmara do Porto. Cheguei a vê-lo como pertencendo aos Serviços Sociais para jovens deficientes, tratados os jardins e com algum movimento. Todos os invernos assistia à floração da bela magnólia na esquina: flores rosa-lilás que brotavam directamente dos ramos, sem folhas. Assim sabia que ia chegar a Primavera. Há-de haver um desenho dela que ensinei o meu filho a reconhecer.

De como está, em abandono




Procurando referências, encontrei imagens do seu interior, elegante, cheio de pormenores florais e vitrais coloridos. Nunca hei-de perceber "estas coisas", do deixar andar, de deixar a descontrução do tempo tomar conta dos espaços e torná-los selva e ruínas. Que negócio se ocultará para este lugar? Pelas décadas que vivo nesta área, aflige-me ver a destruição da memória dos espaços verdes e antigos.

 

 
 

sexta-feira, julho 15, 2022

Num passeio por lugares de escritas antigas

"Eu sei eu sei conheço vivi - era cidade como se o não fosse, um nico de espaço para viver. Era miséria envergonhada. Era, por si só, uma vergonha - falava-se na social-democracia onde não era preciso atestado de pobre para ir ao hospital... um sonho nórdico.
Ricos? Não os víamos, viviam num tal círculo fechado de poder e dinheiro, uns vagos homens de sobretudo e óculos. Nem sabíamos onde viviam porque nem sequer saíamos a 10 km de casa... A Flama e o Século Ilustrado só davam "decências" visíveis.
Enfim, para mim será sempre a "caixa", a reforma 3 (4, digo eu em 2022...) vezes menor do que o último salário, o medo do senhorio, da edp, dos imprevistos, do "sistema ir abaixo" e não constar o meu nome nos computadores e balcões por aí espalhados... Uma democracia palavrosa e enredada como um bicho de 7 cabeças e mil pés. Um peso que o 25 de Abril me tinha tirado de cima.
NUNCA MAIS, nem fascismo nem mentes fascizantes ou neo-liberais. Se a memória não fosse curta, lembrariam esse senhor dos anos 80 num ver-se-te-avias com os amigos e os fundos europeus. Não enganaria ninguém.
Sexagenária reformada à força

26 Novembro 2011"

Passados 11 anos, mudou o regime, mudaram os sistemas, as eleições, os elencados... Ontem via eu falar de alguns ex-ministros a mudarem de job, com a cobertura e conhecimento privilegiado daquilo a que tiveram acesso, nomeadamente em resoluções governamentais, agora em serviço particular, advogados, comissões, centros de pequenos mas importantes poderes.

Isto é o presente, porque no "ausente" - de que ninguém já lembra a cor ou se dá a esse trabalho enumerado - serão muitos. Também me vem à cabeça um certo senhorito que antes de sair do gabinete ministerial, levou consigo milhares de fotocópias de documentos. Nunca se soube porquê ou para quê. E um outro, durante anos comentador afável e intelectual de um canal privado, que agora possui todos os canais, na tv e na vida pública. Uma verve inextinguível, ou melhor, insaciável. 

Há mistérios e coincidências mesmo misteriosos. 

Como muitos dos fogos, da falta de cadastro de casas e terrenos, e o ordenamento do território. Como a escolha do lugar de um novo aeroporto. A minha "indignação" para o PPP desta semana:

Este é o Jardim do Campo Grande, felizmente reabilitado.

Este é um parque infantil lá no meio.

Este é um das dezenas de aviões que, nas poucas horas da manhã em que lá estive, poluíram o ar, passaram sobre as crianças, sobre as casas, sobre as árvores, sobrepondo-se à fruição do sossego, à alegria e à natureza.

Este é um dos anos –já lá vão mais de 50!!! – em que se discute “Vossa Excelência, acha?” nas dezenas de comissões e associações que se têm debruçado sobre este assunto.

***

A vida continua. A vida é contínua. "Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima", como diz Bertolt Brecht, nos seus "Poemas"





Até no instante da vida breve de uma bola de sabão.


segunda-feira, julho 11, 2022

PPP Agenda para Junho 2022 (C)

O último (meu) desafio constou de "Horizonte". Os que são sempre presentes na minha vida, os desejos de: largueza, espaço natural, bom e descansado futuro. Em termos pessoais e de pessoas. Horizontes... podem ser também pequenas coisas amáveis que nos abrem outras perspectivas!

Esta minha mania de fotografar em esquina é mesmo porque nunca tive uma máquina fotográfica que me desse as distâncias, aquilo em que reparo mais perto e outro ângulo: neste caso a embocadura do rio e o mar da Foz. Também estimava ter uma Leica (???), queria tirar instantâneos seguidos, parados mas como se em movimento.


Houve tempo em que olhar os precipícios não me trazia qualquer problema. Nunca fui muito afoita mas, desde que estivesse em segurança, espreitava e admirava as paisagens. Estas fotografias são antigas, de um terraço de hotel e bar, no Porto. Fiquei fascinada por conseguir ver, de longe, os edifícios que conheço: por exemplo, esta mostra em primeiro plano o Mosteiro da Serra do Pilar e toda aquela Gaia desordenada, de prédios ao alto.

Não procurei muito... mas escolhi outras:



 

Just because I remember London everyday...

Em 1973, um horizonte-da-memória

E, há uns anos, os horizontes possíveis



E porque a música (ainda) estava em mim e comigo

So long...


quarta-feira, junho 29, 2022

PPP Agenda para Junho 2022 (B)

As propostas escolhidas após a ideia primeira, foram (mais) simples. Pensei eu que, depois de dois anos e três meses de confinamentos e sustos vários, escolher as coisas banais que tanta falta nos fizeram, seria um bom propósito. Daí "Passear" foi a primeira.

É uma das coisas que mais me agrada fazer. Desanuvio das nuvens. Ou ninguém, na pacatez dos campos e montes, ou gente, mas de longe. Pareceu-me que este pé em riste representa bem este meu pensar: espreitar e admirar as paisagens. Do alto do Arco da Rua Augusta, em boa hora a tentação de lá subir venceu! O ar estava tão nítido que as fotografias surgiram de seguida, como um filme.

Claro que sobre este tema comum - passear e ver abismos, de que fiz uma ligação latina muito pessoal - arranquei outras fotografias ao pó dos anos passados, com tanto gosto de as rever!

Do "Sítio" na Nazaré há mais de 10 anos



 

Da "Boca do Inferno, estas há mais tempo, com a máquina que me cabia na mão 


 

A segunda proposta foi "Ir ao museu ou ao parque". Não procurei muito... há uns meses tinha estado em Serralves. Uma saída, não para ver peças de museu mas para os belos  jardins do Parque. Era Abril, tudo muito verde e sossegado, ainda havia camélias pelos caminhos serenos. O ensino do nome das flores e das árvores à minha gentil menina-neta, ela vai buscar uma das belezas amortecidas que caem e desfolha-a para mim, com risos. A perfeição do lugar e da companhia. Daí ter passado para a ideia gémea e seguinte: "Companhia"... Um privilégio discorrer sobre esses belos momentos:

O aparecimento do minúsculo insecto, tranquilo no seu pousar, de nos olharmos, eu-pessoa, ele-bicho-verde


Mas Serralves é uma tentação de passeio e em plena Primavera mais ainda!

A avenida dos Liquidâmbares que no Outono serão gloriosos estandartes apelativos nos seus tons de vermelhos, laranja, ocres. Vi que foram plantados há mais de 80 anos.








Estas duas, acima e abaixo, fui encontrá-las mais longe, mais atrás no tempo: e era Outubro, já as primeiras folhas se desprendem para o tapete da estação mais bela, a fada dos bosques que prepara a terra e os seres para o isolamento e a solidão dos dias com pouca luz

A 3ª proposta - o mês de Maio era comprido e nestas coisas de contagens houve 5 quintas-feiras... - era "Aproveitar o dia".

Gosto muito destas fotografias da Lagoa da Foz do Arelho, há muitas, uma sequência de minutos, até o sol se esconder. Nesta em especial, gosto dos tons reflectidos, da sugestão das sombras na areia e do recorte das Berlengas com os Farilhões ao fundo.

Muito poderia escrever sobre "aproveitar o dia": um bom filme ou um livro, um encontro com gente afável, andar pelos campos, florestas ou pela beira mar, andar e escutar as ruínas de muitas pedras velhas, conhecer uma cidade nova, ou reconhecê-la de outros passados. Um guia ou companhia impaciente porque me demoro, sair pela porta lateral "dos museus" quando já a principal está fechada. O que me acontece inúmeras vezes, uma corridinha para espreitar mais uma sala que falta e que levava na ideia... 

Lentamente me desprendo, ou distancio talvez, dos gostos de andar por aí, da vista, do amor, da amizade; que nunca da curiosidade e do encantamento de aprender mais: com um actor, com um escritor, com um quadro, com uma paisagem.