quinta-feira, abril 03, 2008

"Refúgio" de seres invisíveis









Estou em crer que o outro lado do arco íris traria o reflexo das neves na serra.
Porque me pareceu estar ali, entre o mar e as terras altas, no centro dos ventos e tempos.
Aquieta-se o pensamento na companhia do passado a que, de algum modo, pertencemos.
Falando dele.
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Estarei uns tempos em horizontes de mar à vista. Fora do dia comum.

Só não quis deixar as fadas e todos os seres amigos invisíveis, sem um lugar de abrigo mítico.
Onde poderão dançar de pés e ideias soltas, a magia da espera.
Enquanto acontece o resto do mundo e se realiza um outro jogo de interesses: a que não pertenço.

Castelo com cores









... e Paço da realeza, com caminho de segredo entre eles.
Passando o castelo e o paço, fiquei-me eu de passos perdidos, andando e sentindo uma das mais belas fortificações de Portugal.
Não só no alto a nudez da pedra rendada pelo musgo. As curvas das ogivas e remates falavam duma árabe nostalgia em tijolo ocre.
Olhos encantados que vêem ao longe as faces dos montes, numa permanente mutação de verdes.

quarta-feira, abril 02, 2008

Acreditar








Sempre soube que havia fadas com varinhas de condão.
Muito pequena, fechava os olhos com força e desejava "livros": não sabia eu, ainda, que as fadas vivem de sentimentos e não de objectos concretos. Que a sua aura nasce à volta dos espíritos.
Deixei-me de desejos mas, no íntimo, reconhecia-as, fugazes passagens na minha vida.

Encontrei-as nas gentes e nos cantos daquele lugar: um gato, cores e flores, livros, fotografias, recortes, cantos com histórias vindimadas, pessoas que se riam, nas paredes, nas escadas. A alma do pão, do vinho e do azeite, a pedra e a madeira primordiais.

Uma casa com sol lá dentro.

E, durante muito tempo, a olhar o horizonte pensei que o arco íris tinha colocado uma das suas pontes coloridas (não a que nasce, a que pousa) precisamente no sítio daquele lar.

quinta-feira, março 27, 2008

Dias de







Talvez porque uma cadeira prometia esperar-me, já antes da chuva
- e choveu desabaladamente -
ou até seria porque passaram os dias todos: da Mulher, do Pai, do Equinócio, da Primavera, da Árvore, da Poesia, da Páscoa
- e não houve nenhum dia de Amigo mas ouviam-se vozes de longe -

Vi que todas as frésias acenavam e eu tomei cuidado: sentia-me embriagada de amarelo

Enganavam-me: era a nova estação que acontecia ou as águas de Março cantadas
- à vista duma casa-abrigo -

quarta-feira, março 19, 2008

Caminhos da (pouca) visibilidade




Com alguma (im) paciência, destes dias todos afastada das lides computacionais.

O velhote, cinzento esbatido e habituadíssimo às minhas mãos pouco ágeis, aos meus saltos favoritos pelo mundo, ao meu circo acrobático "sem rede" por vezes, de écran esmaecido mas discreto, obediente e tímido... o velho computador, filialmente cheio e partilhado entre a ciência e a (minha) curiosidade...

Sim, que já o vi esventrado, cheio de fios coloridos e placas e fitas largas com tomadas esquisitas, amorosamente tratado e alterado todos estes anos por um prático e jovem engenheiro.
...o Windows não sei quantos, intuitivo para a (ilógica) intuição que tenho para estes mistérios, um teclado claro com letras a preto ...
Pifou de vez! Parou, adormeceu como o Belo Adormecido, emudeceu, guardando em segredo os meus montes de imagens e palavras.
Nem visitas nem mandados,
nem respostas nem recados.

Algo hesitante, procuro o caminho entre tábuas, cordas de apoio, areias e pedras.
Voltarei a chão firme um dia destes.
Acho, acharei.

sábado, março 08, 2008

Mulheres de país e espaço meus








Não, que não seja um lugar comum lembrar o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

As mulheres do meu país são um enigma na fractura deste tempo.
Não sabem a força que tomaram.
Não sabem a força que possuem.

Que se fale, então, para que se lembrem elas do ventre e da terra, onde se acolhem todas as esperanças futuras.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Muro







Lembrada que fôra de mim, vejo um muro para sentar, um pórtico para alcançar.
Ao meu encontro virá, se transpuser a porta de vidro e os fantasmas, mesmo os coloridos.
E raras vezes se julga a carne tão marmórea no pleno direito de se sentir/sentar.
Exilada e em silêncio.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Camélias no museu









Desta vez não falamos nem as ouvi.
Havia um céu quase chuvoso e um silêncio de pátio abandonado.
Espreitei um jardim que não é, é proíbido, foi organizado para estar vazio.
Tem portas que só se abrem para "eventos".
Das ervas magras entre pedras sistemáticas, como se as pedras vivas fossem colecção.
Modernidades escusadas.
Há secretários e ministérios vagos que tratam disso tudo. Decretam.

As pedras? As velhas fontes desterradas?
Bastaria amá-las e fruí-las, entrar e respeitar um lugar oásis da cidade.
Sei que são as mesmas velhas camélias de um antigo lugar.

Mas desta vez não trocamos palavras, observamo-nos no tempo.
Elas, floridas e resistentes a cada Inverno.

domingo, fevereiro 17, 2008

Santos e ditos velhos

Foto cedida, gentilmente e a propósito, pela Belisa do PPP. Obrigada!







"Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra; e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal.
O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar.
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber.
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem.
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.
Não é tudo isto verdade?
Ainda mal."
Padre António Vieira (1608-1697)
Excerto do Sermão de Santo António aos Peixes
400 anos antes e sem ter televisão, o Pregador falava de quê?
Que aprenderam os ouvintes-peixes?