domingo, dezembro 30, 2007

Trazer o tempo II







Impossível voltar, terei de o trazer.
O tempo, amiga minha.

Mas como seria uma vez mais fazermos projectos e rir dos jantares e reforços alimentares espalhados sobre a cama? Bolachas, fruta, sumos, algum "take-away" tardio, chinês, indiano ou o que encontrássemos pelo caminho a desoras.

O nosso hotel B&B sem estrelas mas com o fausto das velhas divas: branco, victoriano, escadaria monumental, fogões de sala e espelhos, tapetes e janelas puídos de passos e braços. E aquelas salas para onde espreitávamos e onde se amontoava toda a tralha que me encantava: biombos, cadeiras, sofás pernetas, mesas e mesinhas, porcelanas e móveis desirmanados uns dos outros, cortinas empoeiradas e edredons acetinados já sem côr.
Vinte anos atrás, conhecia as pessoas que lá viviam e todos os cantos à casa. Contei-te a saga do "Portuguese Empire" ali naquele hotel de trabalhadores e estudantes, emigrantes e fugitivos, chegados e aportados ali pelo azar ou sorte.
Tomávamos, num salão virado para o parque, o pequeno almoço de chá e torradas que mais não havia. E sentíamo-nos princesas!

Saindo de manhã para girar nas ruas, parávamos para o nosso "english breakfast" anunciado em cada esquina: dizia-te que tínhamos que comer e bem, aí pelo meio-dia, para que o alimento nos rendesse o tanto caminho que fazíamos a pé.
A festa era ver como te divertia comer salsichas, feijões, ovos, bacon, torradas e compotas como se almoço fosse.
Ou "burritos" no mexicano, ou fish & chips, ou hamburgers ou fatias de pizza de mastigar despreocupadamente, pela rua adiante.
Esse era um novo divertimento teu que nos aquecia às duas!

Atravessámos os parques e demos comida aos esquilos, víamos as bravas flores de Fevereiro como setas a aflorar a terra e a chamar a Primavera, botões brancos, amarelos e roxos.
Admirámos os lagos e as árvores, os patos, as estátuas, os caminhos, as casas.
Nos mercados, perdíamos a cabeça a bisbilhotar lojas exóticas: recordo bem ter visto um quimono lindíssimo a que se me colaram os olhos. Contas feitas, deixei um suspiro e trouxe a lembrança dele...!

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Ir buscar o Tempo I




...e vivê-lo como se hoje fosse vivo.

"Alameda" do PPP recordou-me o nosso contentamento e uma viagem de Inverno.
Um início de Fevereiro gélido.
E no entanto, quem nos lembrará o frio que julgávamos ter?
Tu, já não.

O médico marcou-me uma consulta num hospital de Londres; com o calor da tua companhia amiga, esqueci de todo as ameaças desses anos.
Só me sobra a pequena alegria de ir "buscar o tempo" dos nossos olhares e bolsas modestas.
Reviver as nossas maravilhas cúmplices e o teu espanto com tudo. De poder falar e andar como nos apetecia.
Ninguém nos olha ou comenta; e os olhos ali não pagam para ver paisagens, felizmente!
Como ao atravessar o Hyde Park e apanhar uma comitiva da realeza em trânsito.
Ah! mas aí espantamo-nos ambas e eu senti uma quase fibra de repórter ao disparar a máquina fotográfica, sem falar nem respirar.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Luz suspensa


...que mandei a amigos de quem conheço andanças e endereços.
Achei esperançosa essa simples lua apanhada acaso numa janela.

Já a ofereci como símbolo.

Esqueci-me de a oferecer a mim.
Eu que sempre peço, e quero, "a lua".

Melhor ainda: uma lua levantada das árvores, um sol deitado no mar.
Fica-me assim:
um simples, tão simples, desejo.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Porque a chuva hoje


A todos os lugares que visito por afinidade
(ou delicadeza),
àqueles que aqui passam,
com amizade e alguma coincidência de ideais,
aos mais de 40 companheiros do Palavra Puxa Palavra http://outrostemas.blogspot.com/
que há tantos meses se cumprimentam, semana a semana,
alegres de partilhar olhares, palavras
e quantas tristezas feitas imagens do mundo!
Não tenho outra forma de vos dizer o tanto e quanto me estiveram próximos e me permanecem.

A todos deixo um aceno/mensagem de porta meia aberta

uma chuva não fria
uma chuva quente que vos envolva o coração
uma chuva de coral
DEI (Depois de Escrito Isto): reparei nas minhas tolas figurações que nem sempre são perceptíveis: a menina planta é de origem da América Central, chama-se russelia equisetiformis
ou chuva-de-coral.

domingo, dezembro 16, 2007

A palavra e a época dos sermões




Posto que vivemos em sociedade, a palavra proposta para a semana passada no PPP foi, evidente, Natal.
Seria preciosismo a explicação de duas ou três opiniões, na aparência divergentes, sobre o assunto.
Há seguramente gente muito cansada das injecções consumistas e delirantes com que somos bombardeados, na mais impura das alegres intenções.
No fundo, todos desejam o melhor. Nesta época para si e abrangendo os outros; porque não fica bem demonstrar distanciamento ou egoísmo.
E muito mal fica deixar um aviso à porta da fábrica a dizer "Fechado".
Mas será gente que não acredita no natal e a quem não vislumbraremos a cara.
Antes ver os cem-mil-sem-abrigo expondo as suas barbas mal cuidadas e a sua dolorosa solidão ridente para as câmaras. Percebemos que uma vez algo lhes conforta a fome e o abandono.

A corrente contra a qual esbracejo é sem dúvida a da alienação.
Toda e qualquer. Agudamente mais vincada e rústica em certas épocas.

A imagem da menina é uma foto de foto (original de FM). Dou com ela a sorrir quando dobro o caminho do corredor pois que está cá em casa há muito tempo.
Os azulejos representam o "Sermão de Stº António aos Peixes".
E dizia o orador:
"Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes"

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Visão do céu






(muito apropriada à época)

Mais um dos meus amores que tem a ver com a fotografia.
Prefiro um lugar à janela e faço-me sozinha em avião particular, suportando olhares indefiníveis perante o meu ar de aldeã que desceu à cidade.

Eu subo aos céus.
Saco da máquina às três pancadas e fico-me feita ave.

Esta uma visão encantadora da península de Tróia
- e Lisboa/Tejo
- e o Jardim e Basílica da Estrela (donde olho aviões no ar)
- e o parque Eduardo VII

(parque por onde tenho vagueado ultimamente, em memórias colectivas de cisnes, árvores, estátuas)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Descalços no parque I








Tento o vislumbre "além de".
Mas o pensamento visível desliza pela superfície das palavras-coisas que me são oferecidas.
Era uma tarde fria e feliz, fulgurante.

Um acaso que novo os cisnes me tentem o olhar.

Talvez pela elegância me façam recordar algumas das poucas pessoas que nem conheço.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Deusa no parque



Sorria de cegos olhos, virada para o poente.

Minerva, filha de Júpiter.
Deusa da sabedoria, das artes e da guerra.
Quanto ao último dos seus atributos, será dispensável nestes tempos de enorme cólera.
Porque não são os deuses que estão loucos: são os homens.
Os mandantes, de pantufas e aquecimento - ou arrefecimento - central.
Com casas, carros e servos.
Despejam opiniões certificadas, inventam armas, divergem de consensos equilibrados.
Poder que lhes deve servir de afrodisíaco para a impotência de se comportarem como seres humanos.
Simplesmente: como seres humanos.

Minerva sorria pensando que por sorte lhe coubera ser patrona dos engenheiros.
Imagino que lhe apeteça deixar cair o mundo e a ave.
Guardará o livro e os outros elementos do saber.
O segredo de fazer nascer do nada uma oliveira florida em Dezembro.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Um discreto distanciamento












Todos sabemos de portas e portões.
Bonitos, velhos.
Abertos, bloqueados, de madeira, imponentes ou simples cancelas por onde se passa para além de.
Maciços, floreados, de curvas em ferro trabalhado. Caídos das dobradiças. Desanimados
Felizmente, a alegria jovem já não os vê, descuidados no tempo em que os vão ultrapassando.
Portas para um lugar que não é desespero por acaso, porque só foi imaginado e nunca percorrido.
Se há algo que não nos desiluda é a imaginação e a sua força infinita de água corrente.
Quanto tempo se poderá viver com ela e dela?

Acaso as semelhanças




Há meses conheci pelos ínvios caminhos das teclas dos pianos e das cores dos quadros, um lugar e outros.
Quiçá não possuo 1% dos teres e saberes culturais que me têm deleitado nesse "bunch of keys", de discretos e recônditos lugares onde por vezes me perco.
Informações coloridas e a preto e branco, sobre músicas, museus, colinas, escritores, divas.
A propósito de Tiepolo.
"nnannarella" encontrará as semelhanças que me ocorreram.
E uma parte do percurso das ideias.
Passando directamente para as portas enferrujadas das lembranças ou caixinhas delas.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Esperar pelo solstício











Sempre se espera por algo de que temos a certeza!
Do menor dia à maior noite.
E dizia ela
(saudades da Vitória - nome de avó - e por outras razões. Doenças da memória de vidro).
...dizia: "depois do natal, saltinho de pardal".
Vitória da luz sobre a escuridão.
Deixo as amigas que mal posso esperar para rever. Uma a uma. As camélias.
É mania antiga, de muito pequena.
Mesmo reparo que as minhas manias são antiquíssimas. Pequena e grande.
As batalhas dos silêncios e as guerras das palavras.

Será a batalha das minhas camélias contra o império do Inverno.
Em vez das "Guerra das Rosas" ou "Alecrim e Manjerona"