sexta-feira, outubro 02, 2020

Outono no PPP de Outubro

Longe dos meus lugares de referência de outros Outonos (Porto, Douro vinhateiro, Serralves, Parque da Cidade), resolvo o desafio desta semana com as plantas das dunas, arrastadas para o mar pelas marés-vivas, do Equinócio de Setembro. Embaladas pelas ondas. Duras, espinhosas mas graciosas, as folhagens que encontrei.

Espreitam pés incautos mas os meus estavam avisados desde a adolescência percorrendo areias. "Quand vient la fin de l' été sur la plage..."


Estas paisagens avulso proporcionam-me momentos que "duram todo o ano", todos os anos. Fazem-me sorrir e esquecer rugas quando os olho, no lugar silencioso da casa, a chuva que cai lá fora, a imposta limitação dos passos. Levanto então a cabeça.

 
 
Porque vivê-los é melhor mas recordá-los é bom.
 




E bichos, formas deles e eles mesmos



Da simplicidade, das madressilvas tardias e cheirosas

E enfim, alguns dos, possivelmente, poentes diferentes de lugares iguais. 


Já a memorizar os "Outonos" nesta outra forma de ver o que está perto.

domingo, setembro 20, 2020

Apontamento de viagem para Sul (diferente)

Desta vez com alguma "valentia" que nisso nos tornamos, precavidos mas valentes, contra a doença do malfadado ano 2020. Sendo que as saudades são muitas, a procura e o encontro na passagem daquele lugar mágico que é o Alentejo. Já com as suas cores terrosas, de um Verão fatigante e sem água. Contudo permanece ainda uma poeira dourada sob um sol oblíquo. E as árvores, o vermelho-ocre da íntima pele dos sobreiros, a altivez do ulmeiro, as azinheiras recortadas contra o céu imenso, as oliveiras de troncos baixos torcidos e esculpidos... todas as ervas flexíveis que se estendem a perder de vista e nos saúdam no vento fraco da planície. Os pássaros fugazes.

Nas cidades vilas e aldeias, um temor.  Lugares de apoio, restaurantes, mercados, cafés, jardins, quase desertos. Desinfectar as mãos, o que se toca ou foi tocado. Evitar as pessoas e falar de longe, com as máscaras que nos fecham o sorriso e abafam a fala.

Ouvir o que se não ouve, o silêncio. Ver o que se não vê, a Via Láctea e um infinito de estrelas, algumas a que damos nomes de bichos e reconhecemos: tentar contar 7 vezes a distância entre duas estrelas da Ursa Maior e encontrar a Estrela Polar. O nosso lugar.

Com-figurações de outros espaços.




















 

 


sábado, setembro 05, 2020

S. João passado e recordado

Deitei fora hoje o manjerico de S. João.
(e para o lixo da história escrita, também foram algumas cartas)
Sempre tive muito "jeitinho" para coisas que rimam, canções, palavras, cores, ambientes.
A quadra que este ano escrevi no meu vasinho:
"Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
passaram mais de 3 meses
tudo ainda a confinar"


Mal sabia eu que assim passaram 6 meses!

Aproveitei e deitei fora também uma quadra antiga que muito me diz ao coração:
"Trevo da sorte não colhas
na noite de S. João
A sorte que vês nas folhas
pode bem ser ilusão"

A sorte não se faz, acontece ou não.
Penso.


terça-feira, setembro 01, 2020

Última semana de Agosto

... no PPP, o último dos fados propostos, de João Ferreira Rosa

"Os lugares por onde andámos
Não os esqueço, meu amor
Nem tudo quanto falámos
Quer seja alegria ou dor..." 

É curioso o que lembra à gente e quase impossível de descrever o momento, tantos momentos, da lembrança ou da memória: são como inúmeros pontos que se iluminam e apagam, vezes sem conta.
Este campo de girassóis foi o que os olhos fixaram, de tempo passado e murcho. Tal os caminhos da "saudade" que é tema das canções do género.


Mas vem também a alegria das cores, quando os passeios antigos nos encheram de alegria e maravilhamento. Não deslumbramento mas "maravilha".
E tantas outras coisas "nos lugares onde fomos felizes" e não sabíamos, na inocência do presente que assim se vivia.




Mais haveria...
Sinto, neste momento e com os tais pontos de luz das recordações, que o meu mapa sentimental é imenso.


segunda-feira, agosto 24, 2020

Os Fados das nossas vidas

O "fado" como destino:
Estava fadada para isto
É o meu fado
Talvez por isso, a fatalidade dos fados, nunca os apreciei grandemente. Provavelmente por ligação intrínseca ao regime, choramingas e maltrapilho, desgraçado, cigano, desprezado.
Mas na minha infância ouvia-se fado em todas as casas, muitos de que me lembro bem, tanto as letras como os artistas. Falava-se em nomes como Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva, Fernando Farinha, Amália, Maria Teresa de Noronha. A Severa (1820-1846) figura mítica do fado de Lisboa que sempre me mereceu uma certa curiosidade, pela sua curta e triste vida.
O que conhecia, principalmente, eram os fados de Coimbra, mais directos ao coração me pareciam.
E, mais tarde, aprendi a apreciar os fados que transformaram a língua portuguesa numa linguagem universal, de escritores e artistas esquecidos. Um gosto ouvir Camões cantado.
Foi assim que entrei no PPP deste Agosto louco, de calor aflitivo e pandemia de aflição.
"Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar..."

Foi o que me pareceu exprimir esta réplica de janela da cela onde se diz que sóror Mariana Alcoforado escreveu as cartas ao seu amado oficial francês. Convento de Nª Snrª da Conceição, em Beja.

"No cimo daquele outeiro
Debruçado castanheiro
geme de sede e fadiga..." 








Aqui a dificuldade foi a escolha, gosto da distinção dos castanheiros e são inúmeras as fotografias que os mostram, em flor e em fruto.

"Naquela casa da esquina
Mora a Senhora do Monte..."
Algumas das amigas participantes no desafio, conheciam perfeitamente o Miradouro da Senhora do Monte, em Lisboa, que deu aliás origem ao fado em causa. Eu não conhecia, já lá estive sem lhe saber o nome. Por isso, fui encontrar igrejas e esquinas de casa várias, quase à sorte.

Esta capela e casa ao lado (A providência divina/Mora ali mesmo defronte), na brancura alentejana, algures entre Cuba e Alvito.
E depois, seguindo o Douro e as suas esquinas...




Ermida de Santo André, à entrada de Beja


Como encontros nas esquinas do tempo...