sexta-feira, maio 15, 2020

Crianças e Bolha

A infância apenas foi feliz em momentos da imaginação que, mais que a realidade, sempre me acompanhou.
A capacidade de fugir para os meus mundos e tantos sonhos que ficaram pelo caminho.
Casinhas de bonecas só inventadas: lembro-me de me esticar em bicos de pés nas montras de dois bazares, em Cedofeita e nos Clérigos.
Recuperar o gosto e retê-las, lá fora, em ambientes distantes.




Fazia muitas bolas de sabão. Era fácil, barato. Com os canudos de cartão das linhas para soprar. Ficava de molho a mistura de água e sabão; e quanto mais esperava mais cores fazia. Descobria assim coisas químicas ou físicas em experiências.
Hoje, na realidade:
os dois braços, os quatro; as duas mãos, as quatro. A imaginação. Nada evita que se viva numa bolha, num etéreo dia após dia, a ponto de sabermos
que rebenta
e apenas será um pingo de água neste oceanos das vidas todas.




Agora há muitos dias assim e, contudo, é Maio. Falta o espaço aberto.

3 comentários:

Isabel disse...

Uma escrita cinco estrelas!
A casinha de bonecas é sua? Não a primeira, mas a outra. Adorei aquelas cadeirinhas da sala de jantar. Tanta coisa linda, mas parecem exclusivas. MARAVILHA!

bea disse...

Na minha infância não houve casinhas de bonecas, é que nem sabia que existiam e portanto, saudade ou desejo não houve.
Mas as nossas bolhas de sabão, feitas disso mesmo e sopradas por uma palhinha que arrancávamos nos pastos, eram muito preferíveis a essas enormes e múltiplas, isto porque já não estão carregadas do esforço da preparação e do despique que fazíamos uns com os outros.
Neste momento é mais ou menos indiscutível e preferível viver numa bolha. Mas não é a mesma coisa. Pois não.

Justine disse...

A imaginação é o refúgio das crianças, e tem muitas vezes de ser também o refúgio dos adultos, a bola de sabão cheia de colorido onde nos refugiamos, onde construimos um mundo paralelo, só nosso!