segunda-feira, julho 06, 2020

Eis senão quando

Tento fazer um post obsessivo
de ondas.


Ter ou não ter

Não me custa adaptar - ao meu ritmo - às tecnologias novas. Encontrei imensa distracção para o meu silêncio e algum isolamento, em apontar memórias, escrever a amigos - e até conversar por mail -, responder, comentar, exercitar a escrita com os meus diversos blogues e fotografias.
Ando em tudo o que me dá notícias dos meus longínquos, pessoas ou viagens, troco fotografias e mensagens, guardo...
Mas se dirá "que não há almoços grátis": com o constante bombardeamento da publicidade, dos ganhos, da dispersão, inscreve-te aqui, inscreve-te ali, cria um grupo, cria "uma sala", amigos que talvez conheças, ligações ... Qualquer bicho careta que tenha acesso a um número de telemóvel ou endereço de e-mail, enche a caixa virtual das mais díspares conjecturas, alarmes, mensagens, notificações e convites. Um dia destes, recebeu-se não sei quantas mensagens de aniversario (todas muito de energia positiva, descontos...)  e a gente fica assombrada!
E gastas/restam-te não sei quantos bytes livres que o resto está ocupado sabes lá com quê!
Enfim, é cansativo o que era apenas intuitivo.
Neste caso, adicionar fotografias a um texto que escrevia, era simplesmente ir ao meu arquivo de fotografias e escolher, sinalizando e carregando, ou anulando, as imagens a propósito.
Com novas orientações do gigante que nos deixou brincar no terreiro - e não há meio de encontrar quem tenha as mesmas limitações ou opiniões - acabou-se o privilégio, com a aparência de se poder "fazer tudo em qualquer lugar", com apps, com selfies.
"Arrastas" uma a uma, fotografias de um pretenso álbum que não foi coligido nem escolhido por ti!
Estás no mundo (des)controlado, na nuvem, na aparência amigável como algodão doce (dizia M.)
A mim lembrou-me a polpa das ameixas vermelhas e maduras...

Enfim, como o mundo e a doença que nos ameaça,
pode ser que mude.

quinta-feira, julho 02, 2020

Há uma Primavera

Esta frase-proposta do PPP fez-me encontrar muitas fotografias a propósito. Algumas que separei.
A minha escolha foi diferente, não era anúncio de estação, era sinal de uma florzinha que despontava, em 6 de Janeiro de 2017.

Pequenas e rasteiras, as violetas têm muito do que gosto: a cor, o perfume, a modéstia.
Pelo contrário: a menina é viva, azul e nacarada como uma pérola, com caracóis que me lembram outros há 40 e tal anos. Que tantos gestos me ficam de memória.
As outras sugestões que havia escolhido falam também de flores. O prazer que me dão os lugares.
De camélias que são, afinal, flores de Inverno, estas de Sanfins de Ferreira. Que descobri por acaso, num jardim particular onde as pessoas as cuidam e adoram






De flores de amendoeira que têm um Fevereiro desabrochar. Estas de um longínquo passeio a Trás-os-Montes.

E a recordação da "minha árvore" em frente, essa por onde sabia do tempo e das estações: bastava ir à janela. Escondia os carros, as ruínas, os passantes. Acenava. Servia de poiso às rolas, aos pardais, aos melros. Servia de carinho aos meus olhos.


Como se vão as coisas. Como se substituem pelo cimento, pela frieza, pela aparência ou o fingimento.
Tal gente.

Fujo para a delicadeza do branco e da paisagem-outra.



sexta-feira, junho 19, 2020

Retrato de "famílias" e Imagens em movimento

O PPP serve-me, como dizer? como pensar? de lenitivo há muito tempo.
Não só pela deserção de pessoas e coisas que se foi dando durante as minhas décadas - e hoje nem sequer me habituo às presenças -, como por este tempo isolado que os medos impõem.
Mas também porque puxam palavras de que gosto, fotografias que revejo, juntando gente que sabe outras coisas várias.
Sobre a proposta para Retrato de família, a minha resposta foi diferente, sem rever a minha família antiga cujas qualidades e origens muitas vezes recordo. E direi que tantas vezes está presente, na forma como pico a cebola ou faço a sopa, no jeito de cortar bacalhau para demolhar, nos "repentes" que às vezes me dão - e que evito, evito o mais possível porque não gosto de sair de mim. E sei que sou soma das partes: da ternura ou da cólera, do analfabetismo ou de ser autodidacta, do jeito de chorar ou calar, da imensa generosidade que me enche, do desprezo que se entorna sobre as coisas de que não gosto.
Ética e estética que me norteiam, mesmo com nuvens contraditórias. Busca pelo mais perfeito ou a caminho de.
O meu Avô Antero era, diziam, "um coração de manteiga": os que estavam encarcerados na Cadeia da Relação faziam-lhe presentes, toscos, em madeira. De pequena recordo ir com a sua viúva, minha Avó, às traseiras do velho edifício atirar cigarros às janelas onde se viam os presos. Como não lembrar a bondade, sempre?


***
No parque, com um mês de intervalo, a mãe, o pai e os filhos:





domingo, junho 07, 2020

Douro que não é campo

O mote era "Quando a paisagem entra na foto", no PPP da semana passada.
E longe do trabalho de a procurar a encontrei, por me estar presente.
Como aliás todas as paisagens desse Douro profundo. De onde vieram os meus bisavós "com uma mão atrás, outra à frente" que era tempo de filoxera e fome.
A bisneta apenas regista a beleza e vagamente recorda as distâncias que no fim do séc. XIX deviam ser uma ignota e desmesurada aventura.




Para nascente







Para poente


E de pequenas coisas se faz o contentamento!


segunda-feira, junho 01, 2020

PPP: os meus antónimos de alegria e a Arte-fonte dela

Sempre procuro alternativas, que nem sempre encontro, é claro! Ou as ideias surgem e escorregam rapidamente por um funil, atabalhoadas com as palavras sugeridas, com os pensamentos em catarata.  Mil e uma ideias como as borboletas nocturnas à volta da luz.
Na proposta da semana de 21.5, entre tantas coisas que descrevi e são contrárias à minha ALEGRIA, publiquei esta foto.
Trata-se de uma imagem que captei perto do cemitério Père-Lachaise, Paris, há anos. Como digo e sinto que tenho vergonha de estar neste mundo global quando é tão injusto, fiquei uns minutos de longe, a tentar não fotografar "a pessoa" que ali estava.

E também não gosto de fotografar coisas más, coisas feias. Não daria para reportar a guerra, a menos que fosse para alcançar a paz. Compreendo que o façam mas é preciso muita ternura, muita compaixão, para apanhar a expressão íntima e intrínseca do "mal" e provocar nos outros uma justa revolta, uma necessidade de "bem".
Fugindo a esta minha regra, há uma década atrás andei num passeio pelas muralhas do Castelo de S. Jorge, e fiquei tão indignada com este espectáculo sujo que o fotografei:
para que fosse limpo!


E como a Arte é fonte de alegria, deixo aqui uma pequenina amostra do que essa alegria me transforma e me faz ver coisas pequenas tal como se visse um quadro de Monet ou uma escultura de Rodin ou... ou...


um recanto inesperado de Arte

onde mãos, imaginação, trabalho, se entregam a inventar padrões e cores.


quinta-feira, maio 28, 2020

Com licença às flores

Desculpem.
Estavam tão caladas, subtis e airosas, entre famílias de flores e plantas, campos verdes... mas não resisti a pegar em vós e trazer um montinho para casa. Sabeis que prefiro este roxo com amarelo mas outras cores também as escolheria. Que a Natureza é cheia de tons!
Ah... que dizer das heras, dos seus recortes humildes pelos muros?
Na mesa da manhã, esboçando um novo dia. Escolhi uma jarra também verde, para vos enganar as cabecinhas. Estava calor e tratei-vos o melhor possível para que permanecessem comigo umas horas.
Ontem:

Hoje, já desmaiadas, ainda me saudaram,
como dizendo "adeus" à fragilidade dos dias.

sexta-feira, maio 15, 2020

Crianças e Bolha

A infância apenas foi feliz em momentos da imaginação que, mais que a realidade, sempre me acompanhou.
A capacidade de fugir para os meus mundos e tantos sonhos que ficaram pelo caminho.
Casinhas de bonecas só inventadas: lembro-me de me esticar em bicos de pés nas montras de dois bazares, em Cedofeita e nos Clérigos.
Recuperar o gosto e retê-las, lá fora, em ambientes distantes.




Fazia muitas bolas de sabão. Era fácil, barato. Com os canudos de cartão das linhas para soprar. Ficava de molho a mistura de água e sabão; e quanto mais esperava mais cores fazia. Descobria assim coisas químicas ou físicas em experiências.
Hoje, na realidade:
os dois braços, os quatro; as duas mãos, as quatro. A imaginação. Nada evita que se viva numa bolha, num etéreo dia após dia, a ponto de sabermos
que rebenta
e apenas será um pingo de água neste oceanos das vidas todas.




Agora há muitos dias assim e, contudo, é Maio. Falta o espaço aberto.

quarta-feira, maio 13, 2020

Amanheceres

Ou acordares agradáveis. Sempre que há passeios, encontros. Aqui - são aspectos do meu carácter itinerante -  tem sempre a ver com a excitação das viagens ou lugares novos.
Ou as contrapartidas das insónias, essas de tantos pensamentos que magoam. Nelas, nas insónias, as manhãs desassossegadas dos deveres. E afazeres.

Este tema na primeira semana do PPP levou-me a procurar manhãs tão diversas! Estas, em retrospectiva, todas boas.
(A)levantamento em Campo de Ourique e as cores da outra banda.


Os flamingos encontram-se - muito ao longe - em vias de saírem dos seus recantos escondidos, com o levantar do sol



De uma janela de Inverno, quando havia a árvore que me dava conta das estações do ano

Amanhecer com os pescadores da Pateira de Fermentelos


E, muito longe, acordar para o monte e as simples flores dele 


 


Desta bela caminhada em sete dias e em sete amanheceres, ficaram-me memórias inesquecíveis!


E lembrando "O Carteiro de Pablo Neruda", esta metáfora do tempo que nos passa agora: uma ponte e um infinito nevoeiro para lá dela.