sábado, setembro 05, 2020

S. João passado e recordado

Deitei fora hoje o manjerico de S. João.
(e para o lixo da história escrita, também foram algumas cartas)
Sempre tive muito "jeitinho" para coisas que rimam, canções, palavras, cores, ambientes.
A quadra que este ano escrevi no meu vasinho:
"Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
passaram mais de 3 meses
tudo ainda a confinar"


Mal sabia eu que assim passaram 6 meses!

Aproveitei e deitei fora também uma quadra antiga que muito me diz ao coração:
"Trevo da sorte não colhas
na noite de S. João
A sorte que vês nas folhas
pode bem ser ilusão"

A sorte não se faz, acontece ou não.
Penso.


terça-feira, setembro 01, 2020

Última semana de Agosto

... no PPP, o último dos fados propostos, de João Ferreira Rosa

"Os lugares por onde andámos
Não os esqueço, meu amor
Nem tudo quanto falámos
Quer seja alegria ou dor..." 

É curioso o que lembra à gente e quase impossível de descrever o momento, tantos momentos, da lembrança ou da memória: são como inúmeros pontos que se iluminam e apagam, vezes sem conta.
Este campo de girassóis foi o que os olhos fixaram, de tempo passado e murcho. Tal os caminhos da "saudade" que é tema das canções do género.


Mas vem também a alegria das cores, quando os passeios antigos nos encheram de alegria e maravilhamento. Não deslumbramento mas "maravilha".
E tantas outras coisas "nos lugares onde fomos felizes" e não sabíamos, na inocência do presente que assim se vivia.




Mais haveria...
Sinto, neste momento e com os tais pontos de luz das recordações, que o meu mapa sentimental é imenso.


segunda-feira, agosto 24, 2020

Os Fados das nossas vidas

O "fado" como destino:
Estava fadada para isto
É o meu fado
Talvez por isso, a fatalidade dos fados, nunca os apreciei grandemente. Provavelmente por ligação intrínseca ao regime, choramingas e maltrapilho, desgraçado, cigano, desprezado.
Mas na minha infância ouvia-se fado em todas as casas, muitos de que me lembro bem, tanto as letras como os artistas. Falava-se em nomes como Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva, Fernando Farinha, Amália, Maria Teresa de Noronha. A Severa (1820-1846) figura mítica do fado de Lisboa que sempre me mereceu uma certa curiosidade, pela sua curta e triste vida.
O que conhecia, principalmente, eram os fados de Coimbra, mais directos ao coração me pareciam.
E, mais tarde, aprendi a apreciar os fados que transformaram a língua portuguesa numa linguagem universal, de escritores e artistas esquecidos. Um gosto ouvir Camões cantado.
Foi assim que entrei no PPP deste Agosto louco, de calor aflitivo e pandemia de aflição.
"Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar..."

Foi o que me pareceu exprimir esta réplica de janela da cela onde se diz que sóror Mariana Alcoforado escreveu as cartas ao seu amado oficial francês. Convento de Nª Snrª da Conceição, em Beja.

"No cimo daquele outeiro
Debruçado castanheiro
geme de sede e fadiga..." 








Aqui a dificuldade foi a escolha, gosto da distinção dos castanheiros e são inúmeras as fotografias que os mostram, em flor e em fruto.

"Naquela casa da esquina
Mora a Senhora do Monte..."
Algumas das amigas participantes no desafio, conheciam perfeitamente o Miradouro da Senhora do Monte, em Lisboa, que deu aliás origem ao fado em causa. Eu não conhecia, já lá estive sem lhe saber o nome. Por isso, fui encontrar igrejas e esquinas de casa várias, quase à sorte.

Esta capela e casa ao lado (A providência divina/Mora ali mesmo defronte), na brancura alentejana, algures entre Cuba e Alvito.
E depois, seguindo o Douro e as suas esquinas...




Ermida de Santo André, à entrada de Beja


Como encontros nas esquinas do tempo...


segunda-feira, julho 27, 2020

Palavra a puxar ideia

"A coisa mais bonita" era a proposta da semana que corre.

Foi um calor que nem deixava pensar. Nem as notícias que nos fizeram bola azeda nas sensações, amarfanhando a vontade de.
Tantas hipóteses, ideias:

A coisa mais bonita que poderia haver, seria embarcarmos todos (oh homens de boa vontade) numa viagem de muitas cores e raças, de entreajuda e alegria, num barco grande que fosse o nosso Mundo. “All lives matter”. Alegorias minhas para este tempo tão perigoso que vivemos.



Ocorreu-me porque continuo a sonhar, mesmo que fosse apenas um grupo, gentil, com dignidade, preocupando-se uns com os outros. Podia ser num bairro, numa escola, num ... sei lá!
Porque me lembrei de (muitos outros) Martin Luther King Jr. que foi assassinado em 1968, apenas com 39 anos de idade: "I have a dream", era o que ouvíamos. E antes dele, muitos outros. E depois dele, muitos mais. Eram negros, são ciganos, são párias, são de outros cultos, de outro país, de diferentes costumes. E que temos nós a ver com isso? Apenas respeitá-los e também não permitindo que nos desrespeitem. Tolerância. Compreensão das diferenças culturais, diálogo.
Isto, por exemplo, canalizando recursos para os mais pobres, sim, pobres e famintos, em vez de ir a Marte...

Na verdade, estes movimentos que têm surgido "pelo ar" - sempre que há uma desgraça, uma má notícia - provocam-me um pouco de "frisson". Especialmente para quem, como eu, viveu muito, lutou muito, soube muito. Depois se nota o reverso, dos movimentos, dos interesses, os oportunistas.
Direi que para muita gente é importante ser chamada à atenção, despertar e tomar consciência. Não o nego mas verifica-se um "pular" de corrente logo que o assunto cai no esquecimento. Ou se procura outra figura para enxovalhar ou enaltecer. O que vender mais.
O que eu sei bem é que os meios de comunicação social estão na sua maioria minados por interesses obscuros e, mais, financeiros e corruptos. Mesmo tendo em conta que a democracia e a liberdade são os melhores valores que se encontraram para defender a espécie humana, como ser pensante e actuante.
Há muitas maneiras de intervir, sem ir empurrado por "modas" e desassombradamente: lembro-me agora de dois brasileiros, Sebastião Salgado e Vik Muniz.
Deste último, apontamentos de uma exposição no CCB, donde aliás colhi as fotografias de
"...o barco vai de saída"...


Alguma luz sobre este ocidente que se revê em espelhos, tendo o veneno aos pés
Senhores de tantas e antigas dores, valei-nos.
Porque "todos somos... (não sei quem)", "me too", black lives and all lives matter.
Nem por um momento me passa pela ideia que um "all" se sobrepõe ao outro, "black". Nem para mim existe como tal. 
Porque é a Humanidade no seu conjunto dos mais desfavorecidos que sofre. Lembro agora as crianças, nas guerras, nas deslocações, nas fomes.
***
Nada de novo à face da Terra. Nem os prós nem os contra!



sexta-feira, julho 17, 2020

Poema PPP

A proposta da Jawaa este mês deu muito que pensar: excertos de poemas e nós, com as respectivas ideias e fotografias.
Esta semana:
"Creio nos deuses..." poema de Natália Correia com a sua acutilância habitual.

Texto meu, traduzido no pensamento com a beleza da mitologia grega, na Galeria Borghese "Daphne e Apolo", uma estátua de Bernini, séc. XVII. 
A história que deu origem a esta estátua é muito bonita: a perseguição de Daphne por Apolo, sendo a ninfa transformada em "loureiro", símbolo que Apolo usou sempre como a sua árvore sagrada.

Creio nos deuses …como o eterno desejo do Homem em sublimar a vida comum, os acontecimentos que ultrapassam a sua compreensão e os hábitos. Uma procura do transcendente, explicando e justificando assim crime e castigo, festa e desgraça, amor e ódio.
 

E, como sempre, não resisti e andei à volta da estátua captando-lhe o movimento e as expressões de tragédia e a beleza
Nessa viagem antiga a Roma, ainda uma vista parcial da praça do Vaticano que me fez lembrar os deuses que muito mais tarde foram introduzidos, ou induzidos, na religião católica.
Sobre as religiões, os religiosos, os seguidores, que respeito se o forem coerentemente, pouco mais tenho que dizer.

segunda-feira, julho 13, 2020

Curiosidades

Da proposição desta semana no PPP, surgiu-me  a lembrança de "A Estratégia da Aranha" sobre a frase "ignoro o que seja".
Nomes de filmes que marcam outros tempos: Bernardo Bertolucci, 1970, um realizador de culto, de quem não se perdia um filme novo. Como nos anos anteriores, anos 60, se viam os filmes do neo-realismo italiano que tanto nos diziam da sociedade de então.
A aranha estava pendurada laboriosamente, no estendal, fora da janela. Aí construiu - seria de noite? - um intrincado véu em teia. Quando a vi e observei durante uns minutos, tinha acabado de apanhar um insecto: fiquei fascinada porque nunca tinha visto, assim perto e com a lente da máquina, o decorrer da refeição do bicho. Claro que depois disso, mandei-a para longe, entre as plantas, que cada um no seu lugar!





O que me espanta nos animais: a habilidade nas construções das suas armadilhas ou esconderijos:



Ao mesmo tempo, na procura do "ignoro o que seja", apareceu-me uma figura de terracota que tem uma pequena história.

No recuado ano 2001, numa viagem a Paris e com uma amiga. No Instituto do Mundo Árabe, havia uma exposição de peças árabes, de outros países, e com destaque para uma peça "portuguesa", que fomos ver. Era nada mais nada menos que este Vaso de Tavira!
Recordei-o logo quando mais tarde o vi e fotografei.. em Tavira, no Museu Municipal, no núcleo do Património Islâmico.
E, sempre a propósito de um fio do acaso, como a teia... fui ler informações no Jornal Sul Informação, uma notícia de 24.2.2012: um tema misterioso e fascinante, mil anos depois!
Donde me vem à memória, outra viagem posterior a Paris e o mesmo Instituto que só se viu por fora: a andar, a andar, à beira-Sena, depois do Boulevard Saint-Germain, estava mesmo a fechar!








O agrado com que lembro estas coisas que, tantas vezes ao vê-las, "ignoro o que sejam"!



segunda-feira, julho 06, 2020

Eis senão quando

Tento fazer um post obsessivo
de ondas.


Ter ou não ter

Não me custa adaptar - ao meu ritmo - às tecnologias novas. Encontrei imensa distracção para o meu silêncio e algum isolamento, em apontar memórias, escrever a amigos - e até conversar por mail -, responder, comentar, exercitar a escrita com os meus diversos blogues e fotografias.
Ando em tudo o que me dá notícias dos meus longínquos, pessoas ou viagens, troco fotografias e mensagens, guardo...
Mas se dirá "que não há almoços grátis": com o constante bombardeamento da publicidade, dos ganhos, da dispersão, inscreve-te aqui, inscreve-te ali, cria um grupo, cria "uma sala", amigos que talvez conheças, ligações ... Qualquer bicho careta que tenha acesso a um número de telemóvel ou endereço de e-mail, enche a caixa virtual das mais díspares conjecturas, alarmes, mensagens, notificações e convites. Um dia destes, recebeu-se não sei quantas mensagens de aniversario (todas muito de energia positiva, descontos...)  e a gente fica assombrada!
E gastas/restam-te não sei quantos bytes livres que o resto está ocupado sabes lá com quê!
Enfim, é cansativo o que era apenas intuitivo.
Neste caso, adicionar fotografias a um texto que escrevia, era simplesmente ir ao meu arquivo de fotografias e escolher, sinalizando e carregando, ou anulando, as imagens a propósito.
Com novas orientações do gigante que nos deixou brincar no terreiro - e não há meio de encontrar quem tenha as mesmas limitações ou opiniões - acabou-se o privilégio, com a aparência de se poder "fazer tudo em qualquer lugar", com apps, com selfies.
"Arrastas" uma a uma, fotografias de um pretenso álbum que não foi coligido nem escolhido por ti!
Estás no mundo (des)controlado, na nuvem, na aparência amigável como algodão doce (dizia M.)
A mim lembrou-me a polpa das ameixas vermelhas e maduras...

Enfim, como o mundo e a doença que nos ameaça,
pode ser que mude.

quinta-feira, julho 02, 2020

Há uma Primavera

Esta frase-proposta do PPP fez-me encontrar muitas fotografias a propósito. Algumas que separei.
A minha escolha foi diferente, não era anúncio de estação, era sinal de uma florzinha que despontava, em 6 de Janeiro de 2017.

Pequenas e rasteiras, as violetas têm muito do que gosto: a cor, o perfume, a modéstia.
Pelo contrário: a menina é viva, azul e nacarada como uma pérola, com caracóis que me lembram outros há 40 e tal anos. Que tantos gestos me ficam de memória.
As outras sugestões que havia escolhido falam também de flores. O prazer que me dão os lugares.
De camélias que são, afinal, flores de Inverno, estas de Sanfins de Ferreira. Que descobri por acaso, num jardim particular onde as pessoas as cuidam e adoram






De flores de amendoeira que têm um Fevereiro desabrochar. Estas de um longínquo passeio a Trás-os-Montes.

E a recordação da "minha árvore" em frente, essa por onde sabia do tempo e das estações: bastava ir à janela. Escondia os carros, as ruínas, os passantes. Acenava. Servia de poiso às rolas, aos pardais, aos melros. Servia de carinho aos meus olhos.


Como se vão as coisas. Como se substituem pelo cimento, pela frieza, pela aparência ou o fingimento.
Tal gente.

Fujo para a delicadeza do branco e da paisagem-outra.