terça-feira, abril 21, 2020

Pessoas que não conheço de lado nenhum

Sobre as carrinhas-biblioteca da Gulbenkian:
Na cidade não havia mas sei que existiam. A Gulbenkian sabia que a cultura era uma raiz que prende e alarga. Aos 7/8 anos, guardavam-me às tardes, na Biblioteca Municipal, nas férias, com ordens para ali ficar até o meu pai me ir buscar. Lembro-me bem do arrulho dos pombos rompendo um silêncio de pó no pátio sombrio. E eu que gostava muito de ler e não tinha livros, pedi pela primeira vez um livro: "De Angola à Contra-costa" convencida que ia ler aventuras na selva! Os livros têm muitas histórias e pessoas, dentro e fora: uma vez conheci alguém que comprou metro e meio de lombadas de livros para enfeitar a estante.
Sou uma intelectualóide ambulante e tipo esponja, detesto lugares comuns e intrigas de faca e alguidar. Daí que a maior parte das séries ou filmes anunciados me passam ao lado. Livros releio: ando a ler por ex. a Isabel Allende que li há 30 anos e sinto diferença. Quanto a doc. de viagens, mares, gente interessante e longitudes, essas vejo-as todas. Às horas do telejornal.

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Anos 80, exposição Casa de Serralves



Uma oferta para "bettips" há muito tempo

Uma viagem a Foz Côa quando não havia museu



O Tua que não se verá

As indecifráveis portas do mundo de H. Bösch
... e as minhas


As flores de uma casa perto do mar



Tão antiga que nem sei a data...
E talvez por isso, pela diversidade de pensamentos que me enche, me dá para responder, educadamente, às pessoas que nem conheço, como se falasse para um poço ou um desfiladeiro com água a correr lá baixo. Com as antiguidades do meu disco externo.

domingo, abril 19, 2020

Cruzamentos e amarras

Cuido-me mas não arrumo. Limpo apenas o que está, vou-me governando no razoável. Tenho pena dos meus últimos anos serem assim com tantas restrições. Especialmente não estar com o meu filho e família, pouca mas inestimável, e sem poder ir "para a Natureza" Há quase 2 meses que não saio a pé de casa mas mantenho-me informada. Filmes, séries também, inglesas sempre, europeias às vezes. Sei que há gente que morreu, que morre, que trabalha em condições precárias e perigosas. Sempre. Hoje vêem-se mais. É uma doença a (con)dizer com a "democracia" e os filmes de terror. Lembro-me de caridade e esperança. Fé tenho pouca. Oxalá é a palavra em que mais penso. Notícias de doenças são terríveis, cada um lida à sua maneira. Uma "rapariga da minha idade" morreu no dia 2 de Março. Viver a prazo é doloroso. Luís Sepúlveda deve tê-lo sabido na pele e nos ossos, e naquela cabeça digna.
A morte não serve a ninguém e este medo só esboroa o que tínhamos antes. Este lugar estranho em que se tornou o mundo, estas redes, cruzam-nos a esperança e a alegria de viver com interrogações de "como".
***
Um comentário dos milhares que por aqui e ali deixo.
Confinamentos.




Quantos quilómetros de minutos faltarão para ver de novo o Alentejo?

sexta-feira, abril 17, 2020

Espremedor, laranjas e desafios

Para não perder as escolhas desta semana no PPP. Porque sempre ando pelas minhas fotos antigas até decidir... Sobre "espremedor" algumas propostas dos "concorrentes" são bem originais.
A minha foi esta, um lugar ao Sul, onde até o nome é bonito:

Às vezes nem sei o que me dá para tirar fotografias destas, uma mesa ao sol e um limão!
Um hábito bom, desde há uns anos: comer uma laranja de manhã.

Esperando que tudo isto, e o entretimento dos nossos amigos, nos ajude neste tempo tão difícil.


segunda-feira, abril 06, 2020

As notícias e os pensamentos - de longe

Todos nós, e todos os meus, família, amigos, conhecidos, estamos hoje confinados ao essencial. Pouco. Em casa o mais possível.
Antes de e enquanto.
Estava eu na praia, tentando curar ao sol e ao ar o desamparo de ter ficado sem emprego, quando um casal sentado perto de mim que tinha um rádio, fez menção de me chamar. Era o 11 de Setembro de 2001, o tenebroso ataque ao coração financeiro da cidade de Nova York. E nunca mais nada foi como dantes.
Recordo o horror, o pânico e a dor. Recordo as medidas restritivas de movimentos, as suspeitas, os aeroportos e a vigilância, as vezes em que cada um e todos olhámos desconfiadamente para a "diferença".
O que se seguiu depois não tem explicação, a não ser a de um mundo em roda livre, em que ricos e poderosos, políticos e gente de meia-tigela, extremistas e oportunistas, jogaram o xadrez entre si, deixando o velho jogo da bisca lambida para nós.
Em 2008, o descalabro económico de operações financeiras obscuras que prejudicaram tanta gente. Essas décadas (e outras anteriores que já prenunciavam o desastre dos povos divididos) marcadas por morte, guerras, fugas, conflitos, fome, miséria e poluição.
O apertado laço das liberdades apertou-se mais.
LIBERDADE não é apenas a de falar, a de votar - e tudo isso em bando/molho de direitos e deveres - a que chamam democracia.
LIBERDADE É PODER VIVER EM PAZ E SEGURANÇA.
Tudo que se passa hoje no mundo, tão total que é aqui mesmo na rua, lá adiante e a mil quilómetros de distância ou do outro lado do globo, nos assusta, nos desorienta.
Nos amargura.
Aquilo que o terrorismo não tinha conseguido globalmente, surgiu como nos filmes de ficção de horror: aconteceu com um vírus. Uma contaminação que se propaga pelo mundo. Todo. Ninguém está a salvo mas onde os velhos e os mais pobres são mais vulneráveis.

Não tenho palavras de ânimo.
Apenas receio pelo que nos resta do viver. E uma saudade intensa dos meus e do Alentejo.


domingo, março 22, 2020

Os tempos que temos

Pelos vistos, diz-me o contador big eye-big foot, ando pelo face-coisa há 9 ou 10 anos. E, volta e meia, "ele" lembra-me. Eu vejo a família, os amigos do PPP, pequenas e exclusivas ligações, de amigos de amigos que me interessam. Apenas de quem e com quem sinto afinidade. Praças públicas para discutir nem pensar, foi tempo, longo tempo.
Faço um quadro de todos estes anos, das terras onde andam as pessoas, onde viajam, o que lêem, o que pensam.
Essa é uma janela entreaberta para um mundo onde não estou!
Hoje, li no jornal uma notícia sobre Beringel, como sobrevivem e se ajudam os velhos, nesta época pesada para todos e mais para "nós". E como se passou  lá, é perto de Beja, fui aos meus arquivos de fotos. Apareceu-me, nem de propósito, o cabritinho a esticar as pernas, tínhamos parado à face da estrada, a falar com o pastor

O sol, o horizonte, os bichos e a calma.
Ocasiões de tanta diferença, agora que a cabeça aparece cheia interrogações, e toda a gente, todos os jornais, todas as notícias, se espalham como serpentes, se contorcem no pior da confusão,
fico-me a lembrar, a ajuizar.
Sem sair para passear há quase??? há mais, de um mês. Voluntária-a-mente, ao ouvir as primeiras notícias.
Duas semanas depois, era o caos e a confusão.
A mão, o dedo, são muito antigos, romanos: que já nessa altura havia calamidades e advertências.



quarta-feira, março 11, 2020

A Exposição de Camélias deste ano

Fica a lembrança da 25ª edição da exposição deste ano. Se prefiro vê-las pelos jardins - e quanto mais ao natural, melhor! - aprecio os contrastes e as espécies que se desenrolam perante os olhos. Nos jardins há também todo um caminho de pétalas que gosto de percorrer.
Das exposições ficam as cabeças coloridas que dizem "olhem para mim que sou tão bonita e diferente!", "Chamo-me ... e venho de tão longe...!"
Estas são as mais expressivas, as outras solto-as em outro espaço meu.
Nestes dias de medos e más notícias, fujo deliberadamente para elas.
Por esta margem, por este rio acima e abaixo

A nobreza dos edifícios, abandonadas as quinas, as coroas.
À espera de mais um bar, um hipermercado, um "qualquer coisa" para entreter e ganhar...
E num inesperado ângulo, uma varanda, uma laranjeira acesa, acena.

As flores são caminhos de luz: acho perfeita a ideia.












Sem palavras. São todas diferentes.
Lendo-lhes os nomes e quem as cultiva, aprendo mais sobre esta forma de ver, de reproduzir, de coleccionar. Da história que liga estas árvores ao solo e à cidade, há mais de 400 anos.


segunda-feira, março 02, 2020

Em 2007, ideias sobre uma exposição

Encontrei nos meus papeis particulares. Passaram 13 anos e tendo em conta os alarmes que sobram, cá e pelo mundo, tudo me parece igual. A quem dirigi estas palavras? Num fundo de um poço as sinto e vejo. Algumas delas, pessoas, serão algumas de hoje? Eu sou.
Foi seguindo exposições em Museus, no CCB e na Gulbenkian e, na altura, escrevendo contra os pruridos da comunicação social que se alargaram à sociedade em geral.


Minhas queridas: d'accord mais... como se dizia antigamente "do mal o menos", quando se partia uma perna em vez de partir as duas! Uns compram terras, jóias, acções, caimões. Outros compram "isso" e mais aquilo ...onde também há coisas boas e bonitas (e valiosas). O dinheiro é a mola real e se não fosse Berardo, era Telles de Menezes ou Martins de Lyma ou Corrêa da Cunha. Confesso que passei meses a discordar assim e assado, como o dizeis e pensais vós, e depois convenci-me a mim mesma: estão cá, vou espreitar.
O pobre estadito nem do Tiepolo sabia, que haja um cowboy a lançar laços ao gado nas pampas do deserto do país.
As condições...sei lá, nem percebo como a Bolsa e todos com os braços no ar, nem a Brisa, nem a Prisa, nem a Cofina, nem a Mediacoisa, nem a campanha com os moços giros a clamar portugal! we wait for you, nem os lucros dos bancos, nem as concessões, nem quanto custa uma cama de doente-cidadão em hospital, nem as propriedades abandonadas à especulação, nem o património vendido ou a cair de podre...
O que sei é dos rabinhos que mudam para cadeiras ainda mornas de rabos conhecidos! Hamsters em roda livre de favores.
Eu não percebo como, nem porquê, há muito homem invisível contorcionista por aí.
E from Russia with Love, sempre é melhor um empréstimo cá na família residente. Daqui a 10 anos, os nossos filhos terão mudado o ministério e may be se possa "alugar" por mais uma geração ...ou se descobrirmos petróleo em Barrancos se bata a nota na mesa!
É claro que não tenho procuração; nem simpatia pelo separatismo e verbosidade ilhéus e muito menos pela vaidade (não só dele, convenhamos!). Mas adoro ver a luta de tigres Opas, ao longe: tu banco/eu chefe de minorias, tu cobres/eu descubro, tu accionas/eu conto meias verdades... Gosto de quem não se cala podendo falar de sua justiça, já o disse não sei quando nem onde.
E gosto muito de gatos, mesmo quando mostram as garras e espetam os bigodes...
***
E assim vai o mundinho nesta primeira década do milénio! O melhor mesmo era terem ido ver "de graça" e apreciar, graciosamente e com o devido distanciamento da cousa; falo a sério, agora!
Beijinhos, muito grata pela vossa insigne colaboração neste lado em que, afinal, estamos juntas.Cogito que se ele aceitasse as propostas dos franceses que lhe cantaram "le fadô", a gente via irem-se os anéis e os dedos. 


Cá está o cisne de 2020! Olhando para trás e treze anos passados, solto, ainda assim, as asas. Entretanto, vi todos os lugares onde Joe Berardo colecciona as suas excentricidades, a arte e os vinhos que produz: Quinta da Bacalhôa, Quinta dos Loridos e Aliança Underground Museum


 As cores e os reflexos

Lembrei "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky a partir de um verso retirado da "wiki" e da sua "Promenade":
"Lead me from tortured dreams
Childhood themes of nights alone,
Wipe away endless years,
Childhood tears as dry as stone."
Nas cores e corredores
 nas solidões acorrentadas de Helena Almeida

 na crueza na infância de Paula Rego
 e a graça de Salvador Dali e o seu "Telefone-Lagosta"

Nos ângulos de vida, alguma luz.