quinta-feira, abril 14, 2011

Noite segunda












E eis que na rebelde noite, no remexer a saudade dos livros e lugares,
do pensar nos ilusionistas do poder,
me surge o Homem da Terra, calcorreador de montes e humanidade.
(Adolfo Correia Rocha) Miguel Torga (1907-1995): médico de origem humilde e escrevedor ilustre das nossas décadas sombrias. Teve o gosto o dizer, fazendo: "...a única maneira de ser livre diante do poder, é ter a dignidade de o não servir".

Sentei-me com a meada da sua prosa, da sua poesia que criava um mundo sobrenatural, dos seus bichos, dos seus deuses da montanha, das suas pedras. E no caminhante que foi, reconheci como amava e sofria o mal do país que somos.

"...um povo que pelos séculos dos séculos teria de arrastar um destino próprio, a fazer milagres da pobreza do chão, das vogais da língua, do lirismo da alma".

Tínhamo-nos debruçado no Douro, rio e terras que tanto amava e donde antepassados nos vieram.
Mas foi aqui que o reencontrei, a uma mesa alentejana, numa aldeia de ruas azuis e ocres.
Pelas cinco da manhã, ainda conversávamos sobre o adeus da última estrela da noite.

E também senti a nostalgia da falta
desse lugar pequeno e imenso que é a terra do Sul.


10 comentários:

Justine disse...

Que belíssimo texto sobre as palavras, as saudades, a noite e este país de dores e esperanças. Tana poesia e tanta nostalgia, amiga!
Que voltes depressa aos lugares que te dão força...

hfm disse...

Sem palavras. Junto às de Torga as tuas e fico-me perdida mas isenta. Obrigada.

mfc disse...

Um texto de sentimentos lindos e de uma verdade que acaricia.
Gostei desta conversa que tiveste connosco.
...e viajei também contigo através das fotos lindas!

élis-lizzie disse...

Um dos meus portugueses preferidos, daqueles que têm os passos dignos agarrados ao chão, tanto que até se ouve o som da terra nua, sem malabarismos nem artifícios.


Mais o Alentejo (que, para mim, é o silêncio dos "montes" e não o das vilas),com a dignidade dos sobreiros e a mística universal das oliveiras.

Mais a luz azul do fim da tarde.

E sim, as longas noites, e as conversas seja lá qual seja a voz, o instrumento do vento...mas sobretudo o silêncio com a ópera das cigarras.

Comeste migas com entrecosto?
Eu cá só de olhar...tenho que ir consultar o Fernando Namora, o Adolfo...:)


Beijinhos

Jorge disse...

A beleza, nas palavras e nas imagens!

Teófilo M. disse...

Como é agradável passear por aqui...

heretico disse...

o Alentejo levanta-se do chão até Miguel Torga. na sensibilidade das tuas palavras. belas

beijos

Filoxera disse...

Que belas noites!
Beijinhos.

jrd disse...

Remexer (n)a noite 'à soalheira'.
Belíssimo.
Abraços

M. disse...

Os lugares são eles próprios com a sua personalidade intrínseca mas também o nosso olhar sobre eles. Personalidades que se encontram entre si.
Muito bonito este teu "Noite segunda".