segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Pelas raízes do rio I







Por "Desafio" agora. E ecos duma controvérsia sobre não-barragem, há anos, para salvar traços antigos e enigmáticos que a água iria destruir.
Rio Côa, foz com o rio Douro. O rio que acordou tarde, na vigília do mundo, e se precipitou pelos montes de Espanha. Rasgando vales profundos, penedos duros, ardendo calor e suor nas margens de vinha generosa.

(O Tejo foi o segundo a acordar. Galgou caminhos de montanha e paisagens secas mas teve tempo para escolher, mais tarde, o percurso pela planície que foi encharcando, num vagar irónico de chegar ao estuário largo e azul.

O Guadiana, confiante, acordou primeiro, cedo. Veio preguiçoso, quase calmo, ao encontro dos mares quentes, escolhendo pudicamente a discreta fronteira que somos. Aprendi assim, estes três nossos rios e os seus afluentes.).

De muitas águas tenho recordações que me deixaram heranças e paisagens inesquecíveis.
Mas, a este Douro donde venho descalça e jornaleira, pela mão da minha bisavó fugida da fome, resta-me o coração acorrentado.

Vou-o conhecendo aos poucos, da foz para nascente. É um rio que se esconde em contornos, visto do ar parece interromper-se nas traseiras brumosas das encostas. Rio Douro masculino e verde, a caminho de todos os poentes atlânticos.

Tanto que existe à volta deste rio Douro! Só no seu pequeno afluente Côa, reune vestígios com cerca de 30 mil anos de tempos idos. Desdobra-se a história, desde o Paleolítico das gravuras rupestres (representações de auroques, cabras, cavalos...), Idades do Ferro e do Bronze, povoações castrejas, romanas, medievais, até agricultores, moleiros e pastores do século passado.

Nós, mutantes da natureza, demos-lhe o título de Património Cultural da Humanidade, desde 1998. É considerado um dos mais importantes conjuntos de arte rupestre do mundo, em 17 km de curso do rio Côa até à sua confluência com o Douro. Onde a não-barragem ficou abandonada.

Abril. Caminhos de terra em jipes da excursão organizada pelo Parque Arqueológico do Vale do Côa, em grupos de 8 pessoas, mais estrangeiros do que nacionais. Depois, a ousadia de descer a pé, em curvas ou a pique, até onde as águas tumultuosas nos deixaram ir nessa Primavera.
Amendoeiras, oliveiras, giestas, tojo, sumagre, papoilas, rosmaninho, ervas e arbustos floridos balançando na paisagem.












3 comentários:

TINTA PERMANENTE disse...

Da lenda dos três rios (a beleza terá razões no abraço que à chegada os espera?...), chama-me a memória aos cantos que o Douro me deixou espreitar. E nunca adivinhei onde nascem as cores...
Abraço!

M. disse...

Outro teu texto muito belo. Parabéns!

Meg disse...

Bettips,
Acho as imagens belíssimas... revejo-me nessas paisagens, e tenho muitas saudades! Atrevo-me a convidá-la a conhecer o rio Paiva - se é que ainda não conhece - que, além de ser o rio menos poluído da Europa, tem umas paisagens de fazer parar a respiração...