segunda-feira, abril 23, 2007

A sul do Rio II - Arouca








Lugar povoado desde tempos remotos, pelos vestígios pré-históricos encontrados, os Romanos fundaram ali uma cidade com o nome de Arauca ou Araducta. No séc. VIII da nossa era, foi destruída pelos Árabes.
D. Afonso Henriques (sempre ele, conquistador e estabilizador!!!) concedeu-lhe foral em 1151.

Da cidade, os cantos de história, recolhidos sem qualquer preocupação a não ser a estética ou a monumental, fazem-nos esquecer que estamos em mais uma terra do interior.
Há um certo ar desafogado naquele lugar, decerto pelos ventos e odores que lhe vem das serras que a abrigam.

A sul do Rio I








Quando nós falamos de rio é, aqui, sempre o Douro. Que nos divide e junta. Andaríamos a vida toda a falar dele; a essas águas abraçando os montes voltarei porque delas vim.
Tantos os lugares de passos passados.

Saíamos com esforço por causa do calor de Agosto. Incêndios nesta terra abençoada de verdes. Mas o mês de "todas as senhoras" é também o tempo de quem está fora matar a nostalgia de dentro. Vivendo nos seus mundos regulados por outros padrões de qualidade, os que chegam vêem a vida barata, a boa comida e o primitivismo de terras e gentes, como o paraíso.

Não os traremos para as neves ou granizos, os caminhos dos bois, as derrocadas das pontes, os velhos que morrem à lareira.
Levámo-los às pedras que bolem e cantam, aos brasões arruinados, à vitela barrosã, aos doces tradicionais.

Damos-lhes uma garrafa de Vinho do Porto como recordação: e com os vapores doces do nosso "vinho fino", verão com olhos coloridos a realidade.
Tantas vezes analfabeta e ingénua, precária e dura, a realidade do país que deixamos fazer e donde eles fugiram.

Arouca terá sido edificada uns 500 anos antes de Cristo. Na cidade e no Mosteiro dela, nos vales e na serra da Freita, passearemos acompanhados e espreitaremos tanto o místico como a natureza.
Um rio maior chamou os seus pequenos filhos, afluentes a sul. E eles correram para Norte, cristalinos como jovens, entre as serranias da Freita, da Arada e do Montemuro, até encontrarem a veia jugular dum rio masculino: o rio Douro.

(Porque a Mena está ausente e gostará; porque a Meg está mais perto e recordará.)

sexta-feira, abril 20, 2007

No title

Hoje não há fotografia que me valha! Só se fosse a da "Múmia" toda enfaixada e com frestas de olhos.
Envergonhada. Por não gostar, por não simpatizar. Desde ontem que penso. Habitualmente penso mas desta vez penso que alguém pensou em mim. E eu não sei que fazer.
Três amigos nomearam-me para não sei que troféu tipo americano, um "Award de Pensar", o que ainda me afligiu mais. Vou ser obrigada a pensar sempre, a produzir pensamentos. Ainda por cima pensamento válidos, interessantes, apelativos.
Ora eu que penso como respiro e não quero obrigar os pensamentos a entrar no curro, a não ser que eu esteja disposta ... (e quantas vezes eu: "Ei, pensamentos!" e eles relutantes...)
Ora eu que desapareço atrás da porta e é que não conheço ninguém
(lembro-me do outro, do Frei Luís de Sousa: "Quem és tu?" tam tam tam tam: "Ninguém!")
Eu, simples flor campestre, ou melhor dizendo
- uma orquídea citadina, daquelas armadas que vêm em caixas, de avião, e climatizadas.
Eu que não me distingo entre centenas (e até só comecei há 11 meses, fico de boca aberta com pessoal da pesada que celebra aniversários quase como bodas de prata - ai, eu acho bem e digo tchim tchim, fico espantada mas contente por tanto movimento se basear em nada, quando há tantos movimentos que deveriam cair pela base e não caem).

Enfim, obrigada, mesmo a

- Bomdiaisabel, de lá longe e tão perto, mulher de vários nomes começados por A!!! Adorável...
- S de Diafragma (elemento masculino que muito me honra com as suas chapas)
- A MManuel do Charlas (que já foi máscara azul e gosta de portas como eu) - e vinho fino

Prontos, só ligo ao facto de terem sido estes três seres especiais que me mandaram o repto, com muito mérito deles e meu, eles saberão coisas que eu não sei...

E depois há quem venha pela porta do lado e comente, queridas vénias - e quem venha pela porta do quintal tomar capilé comigo e cochichar... Todos os que vierem por bem.

Preciso é explicar que odeio concursos, todos. Competição. Publicidade, blá, blá, blá
...e sobretudo Awards que me faz lembrar todos aqueles velhotes dos Óscars, combinados nas falas e nos fatos ( e há filmes que são bons mas eu desconfio sempre do tio Sam, às riscas e de dedo em riste) .
Tenho é de dizer que tenho - mais ou menos - a absoluta - mais ou menos - noção do meu tamanho (um metro e 65) e do meu comprometimento com a Beleza e o Pensamento.
À medida que vos vou desfiando, os contos, as fotos, as pequenas palavras como ramos de cheiros.
Pessoas que eu acho queridas, a escrever ou a mostrar que escrevem. O que pensam e o que nos fazem pensar, muitos são! Com as suas solidões por vezes tão espelhadas. Como poderia relevar 5? Cinco no meio de dezenas? Não seria sincera. Seria pontualmente sincera e não quero relógio de ponto.
Tu que me lês, se por acaso sorris, sabes a quem me refiro. Tenho passado no teu sítio e tenho sido correcta e sincera nas apreciações. Digo gosto, é verdade. Se não gosto, cumprimento e desapareço.
Foi assim que sonhei o meu jardim. Um portãozinho de ferro forjado que está suficientemente velho para ranger e me indicar quem entra.
Também tenho "espanta-espíritos" pendurados. Se não for pelo som, sinto o movimento.

Companhias. Disponíveis. Afectuosas.
Muito obrigada, espero poder, e querer, continuar...
Mas em verdade vos digo que não chegariam os 10 dedos das minhas mãos (e agora estão ocupados aqui) para contar as almas doces, almas paralelas ou simplesmente almas que aqui encontrei e que me prezo de AMAR!

quarta-feira, abril 18, 2007

Ainda o Jardim de Guerra Junqueiro




Recolhi "O Melro". O meu preferido pela ternura e lição de liberdade.
Duma inocência terrível e todavia comovente.
Penso em todos os animais que acompanharam o meu tempo de ser pequena, animais reais e animais sonhados.

Este melro-mãe vivia nos meus segredos infantis, tão real como as fadas e as princesas, os sapos e as raposas, o que imaginava na natureza à solta.

O poema é demasiado extenso para este lugar artesanal mas eu não resisto a arrancá-lo, aos bocados, das páginas de um livro fechado há tanto tempo:

"O Melro"

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d'entre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro, d'entre a horta,
Dizia-lhe "Bons dias!"
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias.
...
E o melro no entanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo, alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.
...
(depois dos pequenos melros terem sido aprisionados numa gaiola, a mãe:)
...
"Quem vos meteu aqui?!" O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:
"Foi aquele homem negro - Quando veio
Chamei...chamei...Andavas tu na horta...
Ai que susto, que susto! ele é tão feio!...
Tive-lhe tanto medo!...Abre essa porta,
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos construir a nossa casa
Num bonito lugar...
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"
...
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa, mas a alma voa..."
...
(ao vê-los mortos por bagas de veneno que lhes deu a mãe, o padre:)

E, arremessando a bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e mais verdade,
Há mais Deus com certeza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nesta bíblia antiga... Ó Natureza,
A única bíblia verdadeira és tu!..."

"A Velhice do Padre Eterno" de Guerra Junqueiro.
E tudo veio dum Jardim de Lisboa, poemas agarrados com as redes largas do pensamento.

terça-feira, abril 17, 2007

No jardim, recordo o poeta




Pelo caminho da infância, lembrei o poeta e o livro "A Velhice do Padre Eterno". Guerra Junqueiro. A edição que havia em casa era antiga e excomungada, certamente. As figuras deliciavam-me a imaginação: serpentes, mundos, frades anafados de hábito, um Deus antigo de longas barbas e ar prazenteiro.
Figuras de Bordalo Pinheiro em poemas poderosos.
Anti-clerical, profundamente moderno na sua apreciação, Guerra Junqueiro ainda hoje me faz rir com as suas ladaínhas:
"...
Santa Intrujice - entrega as almas toscas
Santa Intrujice - às nossas artimanhas...
Santa Intrujice - Deus destina as moscas
Santa Intrujice - a papo das aranhas.
S. Venha-a-nós - realiza este desejo,
S. Venha-a-nós - ingénuo e timorato:
S. Venha-a-nós - faz do universo um queijo
S. Venha-a-nós - e faz de nós um rato!
..."
(Atrevo-me a pensar nas multinacionais e no seu credo!)
Para a noite, a ironia do medo:
"O Papão
As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas,
Para as levar no bolso ou no capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!"
Voz forte e sarcástica, imagino-o hoje a ser declamado no belíssimo coreto do jardim. Os seus poemas são para ser lidos em voz alta e de alto.
E que actual seria.

Partilha e devaneios





E sobre "Partilha", as pequenas tartarugas do Jardim da Estrela.
Dividindo o espaço e o sol.

Como se tornou assim estranha uma palavra que tem sido um contínuo acto?

Parti (r) (i) lha (ar) ... Partir ou partilhar a ilha?

Figura (r) - figu(rar)... figurativo?
"Andar" por exemplo, como figurar o "andar"? Ando com os pés, as pernas.
Ando com os sentimentos.
Ando com o que corro e vejo, pensando. Ou penso e vejo, enquanto corro.

Andei nos livros e também nos campos. (Per) corridos. (Des) figurada.

Visto-me destes véus inquietos que esvoaçam enquanto escrevo e me disfarçam de mim.
Onde pousei os olhos e o corpo?
Onde parti ou reparti?
Onde cheguei?

Que lago e em que jardim ou ilha?

quarta-feira, abril 11, 2007

Museu e Brilho

Vista geral do Museu Guggenheim de Bilbau (Wikipédia)


"Maman" - escultura aranha por Louise Bourgeois

"Puppy" de Jeff Koons





Este estranho "Centro" que deixei no PPP. Escultura que pode ver-se na primeira foto (Wikipédia) e nesta, ao fundo à esquerda.
Aranha do tempo, como contraponto à luminosidade e brilho em todo o sítio onde nasceu o Museu Guggenheim, Bilbau, Espanha. Sei que o arquitecto canadiano Frank Gehry escolheu um sítio abandonado de velhos edifícios, olhou-o do alto e disse: "ali!".

Como todo o espaço parece um navio/estrela onde, em vez da nudez da pedra e aço, se reflectem espelhos de água, sítios abertos de sentar e flores domesticadas... LUZ.

A ver, pelas exposições, pela arquitectura.

Mas sobretudo por todo o ambiente de paz inovada em que o Museu barco deixa respirar o rio.

segunda-feira, abril 09, 2007

Subir


Esta gente tão querida que aqui passou, com ramos de Páscoa e bons desejos.
Deixo um fundo
(de onde é preciso subir).

Certo que lá no alto há uma torre e vista larga. Acariciar olhos...

Porque me é espantoso ainda (re)conhecer pelo gosto os que aqui se movem comigo.
Um obrigada a cada um, particularmente, porque cada um é diferente.

quinta-feira, abril 05, 2007

Digo e desejo




que fiquem BEM, como gostem de estar.
Com quem. No lugar onde prefiram.


Façam força para isso.
Fazer vontades a vós próprios.
Boas vontades.
Girândolas de alegrias simples.
Como os olhos dos vossos amigos verdadeiros, onde quer que eles estejam.

Festas, assim a metro, só na casa dos retalhos.

Por isso, a cor no escuro.
Amêndoas que não tive em pequena, não as quero agora. Não me apetece querer.
Doces e duras. Supérfluo prazer de tão poucos sentidos. Mais o olhar come as páginas do livro. Avidamente.

(Fotos de MCP)

terça-feira, abril 03, 2007

...perdura ainda











...porque me faltaram as fotografias que tinha escolhido. E nem estas estão pela ordem que pensei. Artesanato eu faço, mesmo com o computador. Não há remédio nem mais aprendizagem.
O meu colaborador levantou-se pela primeira vez, há que anos, e nunca mais parou! Passa de fugida...Tenho um grande trabalho para criar um post; assim como se andasse no rio em cima de pedrinhas, escorrego.
Podia pôr uma palavra. Ou duas. Ou umas palavras por cada fotografia. Ou fotografias sem palavras. Um poema, pensamento.
Instintos meus, sonho meu...
...vai buscar quem mora longe, sonho meu...
Estas são algumas das fotografias desse correr a terra pelo Guadiana abaixo.
Reparo. Revivo. Reparto.

segunda-feira, abril 02, 2007

"Sonho" da semana passada...







Foi este o "Sonho" palavra/semana passada, no PPP.
Fotografia que jamais se repetirá. Hoje este espaço entre o menhir do Outeiro (6m de altura) e Monsaraz, é o leito do Alqueva. A barragem que era para dar "vida" - água? - ao Alentejo, conjecturada há décadas, cavalo de batalha duma esquerda vigilante e pouco actuante.
Hoje será para turismo, de "qualidade", de barcos, de motas de água, de BTT ou jeeps. Assim vão os anúncios para "inglês ver".
Porque se fala tão pouco naquilo que é raiz de nós, as culturas das terras. Desanimo. Desânimo. Tanto fogo fátuo.
Isto verde espaço, verde oliveira, nunca mais se repetirá. As minhas fotos são de 2001 e as recentes são das que andam por aí, nos cartazes do novo Alentejo (esquecido o outro?).
Monsaraz ao fundo, ervas tornadas algas, pedras da terra submersa na água.

O cromeleque do Xerez, história antiga, lagaretas, símbolos, pedras do lar, tudo foi retirado para ficar a salvo das águas: disseram; acredito que tenham encontrado um lugar mágico como este o era. (Porque as notícias que vejo é de cães danados, donos doidos, tráfico de mulheres e de influências - para mim igualmente sórdido - juízes distraídos a quem ninguém pede contas, politiqueiros).

O "novo Alqueva" e a vaca sagrada do turismo - for all?? querias... - a que chupam as tetas até ficar disforme, seca e em cimento, ervas só criadas em condomínios.

Lembrei um viaduto altíssimo a ser construído, nós cá em baixo, a olhar para cima, embasbacados, o caminho para a aldeia da Luz. Já fantasmas, os velhos a quem, timidamente, dissemos "boa tarde", velhos curvados e troncos torcidos para a terra como infinitas oliveiras. Pratas, bronzes e oiros do nosso querido Alentejo.
Nomes lindos como o povo desses lugares. Terena, Cabeça de Carneiro, Motrinos, Moura, Serpa, Margalhos, Bezerra Doida ...

Pulo do Lobo (onde o outro doutor, de económicas e encómios, se pensou introspectivo presidente de paróquia).

Uma descida pelo purgatório do calor e das pedras raiadas de alaranjado, arbustos vermelhos e selvagens, água vibrante e logo meiga. Amar ela.
Em cada bocado daquela terra, dançavam as fadas rindo e fugindo dos deuses.
Em cada bocado sagrado da nossa terra, onde se podem encontrar os sinais do princípio do Mundo.
Sinais que não podemos ignorar, apesar do silêncio ensurdecedor dos "senhores da guerra".