segunda-feira, abril 23, 2007

A sul do Rio I








Quando nós falamos de rio é, aqui, sempre o Douro. Que nos divide e junta. Andaríamos a vida toda a falar dele; a essas águas abraçando os montes voltarei porque delas vim.
Tantos os lugares de passos passados.

Saíamos com esforço por causa do calor de Agosto. Incêndios nesta terra abençoada de verdes. Mas o mês de "todas as senhoras" é também o tempo de quem está fora matar a nostalgia de dentro. Vivendo nos seus mundos regulados por outros padrões de qualidade, os que chegam vêem a vida barata, a boa comida e o primitivismo de terras e gentes, como o paraíso.

Não os traremos para as neves ou granizos, os caminhos dos bois, as derrocadas das pontes, os velhos que morrem à lareira.
Levámo-los às pedras que bolem e cantam, aos brasões arruinados, à vitela barrosã, aos doces tradicionais.

Damos-lhes uma garrafa de Vinho do Porto como recordação: e com os vapores doces do nosso "vinho fino", verão com olhos coloridos a realidade.
Tantas vezes analfabeta e ingénua, precária e dura, a realidade do país que deixamos fazer e donde eles fugiram.

Arouca terá sido edificada uns 500 anos antes de Cristo. Na cidade e no Mosteiro dela, nos vales e na serra da Freita, passearemos acompanhados e espreitaremos tanto o místico como a natureza.
Um rio maior chamou os seus pequenos filhos, afluentes a sul. E eles correram para Norte, cristalinos como jovens, entre as serranias da Freita, da Arada e do Montemuro, até encontrarem a veia jugular dum rio masculino: o rio Douro.

(Porque a Mena está ausente e gostará; porque a Meg está mais perto e recordará.)

6 comentários:

Rach disse...

essa relva e "chuvinha" muito convidativas tendo em conta o calor aqui em Lisboa.
o almocinho convidativo, ainda que não aprecie bovinos, ovinos e cabrinos (o queijo é sempre uma delícia). o verdusco, esse é outra história...saúde,tchim tchim... e já agora adocemos a boca para o caso de algum amargo.
saúde ao primitivismo das terras e gentes de aí, do meu alentejo

e não te esqueças do teu Douro que também me faz sonhar

jlf disse...

Não!
Espera aí, bet! Deixa ver se te consigo acompanhar:
“A essas águas abraçando os montes voltarei porque delas vim”... “Mas o mês de "todas as senhoras" é também o tempo de quem está fora matar a nostalgia de dentro.”

Mais devagar, bet...
“Não os traremos para as neves ou granizos... os velhos que morrem à lareira.”

Deus!
“Com os vapores doces do nosso "vinho fino", verão com olhos coloridos a realidade.”

Tenho sede!
“Um rio maior chamou os seus pequenos filhos, afluentes a sul. E eles correram para Norte, cristalinos como jovens, entre as serranias da Freita, da Arada e do Montemuro, até encontrarem a veia jugular dum rio masculino: o rio Douro.”

Como é refrescante a tua poemada prosa!

Depois diz que é proibido evocar o santo nome em vão... Anda... Atreve-te a repetir...

Vou satisfeito.
Ciao
jl

Meg disse...

Tenho uma fotografia tirada no mesmo sítio, em que se vê aquela capelinha lá embaixo, foste pela Lomba... foste a S.Domingos da Queimada, um pouco acima das Minas... viste as ruas cobertas de desenhos bordados em flores de todas as cores, quando se desce para a praia da Lomba?
Estiveste em Alvarenga? Os meus mundos...essa pedra a indicar o caminho, tão familiar e tão presente na minha memória e nas minhas fotos...
Deixei nesses ares parte do meu coração.
Um abraço de emoção

Meg disse...

Não quero falar dessas escostas queimadas...
Bjs

Anónimo disse...

Bettips,
um mimo sabe sempre bem, principalmente quando estamos longe, bem o dizes!
Gostei, gostei imenso!!!
Não conheço Arouca, mas fiquei cheia de curiosidade e de vontade de conhecer e de a mostrar também aos meus filhos, para que conheçam a outra metade de onde vêm!
Nasci como tu à beira rio, no meu caso o Tejo. Mas, desse teu rio, o Douro, herdei as marcas que terá deixado no sangue dos meus avôs,paterno e materno, ambos nascidos na Foz.
É um pouco como dizes, nós que estamos fora, que deixámos Portugal (eu à vinte anos), pelas mais diversas razões, vivemos noutros mundos regulados por outros padrões de qualidade, no ensino, na segurança social, no acesso à cultura, mas não nos afectos.
Gostamos de voltar sempre que nos é possível.
Não tanto com intenção de ir fazer turismo,num país barato, agora que para muitos a situação financeira melhorou.
Muito mais porque,( e estou convencida que posso falar assim pela maioria de nós),
assim como é verdade para ti em relação ao teu rio, assim é connosco em relação a Portugal, a esse país à beira-mar, voltamos, porque dele viémos!
Porque o amamos!
Tal como depois de adultos, continuamos a visitar a casa dos nossos pais. Não como visitas de fora, mas como filhos que somos!
E com a vontade cada vez maior de lhe conhecer todos os cantos!
Um grande beijinho e continua ensinando-me a conhecer melhor esse teu e meu país, neste blog que me encantou.
mena m.

Isabel Magalhães disse...

Bettips;

Vim descendo e lendo e partilhando a generosidade da oferta de tanta informação, do tanto que há sempre a aprender sobre a diversidade da nossa paisagem e a História que nos trouxe até aqui.

Grata, sinceramente.

I.