quarta-feira, abril 18, 2007

Ainda o Jardim de Guerra Junqueiro




Recolhi "O Melro". O meu preferido pela ternura e lição de liberdade.
Duma inocência terrível e todavia comovente.
Penso em todos os animais que acompanharam o meu tempo de ser pequena, animais reais e animais sonhados.

Este melro-mãe vivia nos meus segredos infantis, tão real como as fadas e as princesas, os sapos e as raposas, o que imaginava na natureza à solta.

O poema é demasiado extenso para este lugar artesanal mas eu não resisto a arrancá-lo, aos bocados, das páginas de um livro fechado há tanto tempo:

"O Melro"

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d'entre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro, d'entre a horta,
Dizia-lhe "Bons dias!"
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias.
...
E o melro no entanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo, alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.
...
(depois dos pequenos melros terem sido aprisionados numa gaiola, a mãe:)
...
"Quem vos meteu aqui?!" O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:
"Foi aquele homem negro - Quando veio
Chamei...chamei...Andavas tu na horta...
Ai que susto, que susto! ele é tão feio!...
Tive-lhe tanto medo!...Abre essa porta,
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos construir a nossa casa
Num bonito lugar...
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"
...
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa, mas a alma voa..."
...
(ao vê-los mortos por bagas de veneno que lhes deu a mãe, o padre:)

E, arremessando a bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e mais verdade,
Há mais Deus com certeza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nesta bíblia antiga... Ó Natureza,
A única bíblia verdadeira és tu!..."

"A Velhice do Padre Eterno" de Guerra Junqueiro.
E tudo veio dum Jardim de Lisboa, poemas agarrados com as redes largas do pensamento.

19 comentários:

Teresa Durães disse...

num file, Orgulho e Preconceito, Jane Austen, sempre que aparece a personagem Elisabeth (?) ouve-se um melro :)))

Rach disse...

Se eu não fosse tão narcisista e egocentrica... diría que a menina resolveu entrar em diálogo comigo através da imagem e de Junqueiro
:-0)
continuo a achar o jardim uma delícia e o texto ao riso, porque me estou a lembrar de J.Austen

Maria disse...

Lembrei-me do Melro, do Janita....

Estas tuas fotografias são lindas. A sensibilidade de quem as tirou está toda aqui, à vista...

Beijo

Conceição Bernardino disse...

Olá,
Desculpe a minha ausência, mas o que importa é, que estou de volta.
Ofereço-lhe este poema da minha autoria...

Sorriso


Não me lembro de ter nascido,
Não me lembro de ter vivido,
Não me lembro, jamais de alguma coisa
Se não somente, de ter sofrido!
Mas que importa isso agora?
Se sou feliz por ora.
Tenho amigos por todo lado
Os quais eu tanto amo
Os quais eu muito respeito
Sou feliz, por fazer sorrir alguém
Que sofre tanto ou mais do que eu.


Conceição Bernardino

Beijinhos e uma boa semana...
http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com

Era uma vez um Girassol disse...

Bettips, que emoção ver o Jardim da Estrela...
Namorava e estudava aí...e vivia perto, na Rua do Quelhas.
Tantas recordações bonitas!
Obrigada por este presente...
Bjinhos

meg disse...

Quanta ternura nestas imagens e nas tuas palavras...
As pequenas coisas que nos mostras, o valor que lhes dás, e que a maior parte de nós não vê...
Hoje é um dia especial, e a tu o devo
Um beijo

Teresa David disse...

Que bonito poema e imagens.
Retribuo com ternura o abraço, desculpa andar ausente mas meu filho partiu ontem para a Holanda e tenho estado a aproveitar este precoce verão para estar a revitalizar-me na praia, daí andar pouco por estas bandas do computador.
TD

Ana Luar disse...

O teu poema fez-me recordar o livro "O Fazer da Poesia" de Ted Hugues:


I
Entre vinte montanhas cheias de neve
a única coisa que se mexia
era o olho do melro.

II
Eu era de três mentes
como uma árvore
onde há três melros

III
O melro rodopiava no vento de Outono.
Era uma pequena parte da pantomima

IV
Um homem e uma mulher
são um só.
Um homem, uma mulher e um melro
são um só.

V
Não sei de que gosto mais,
se da beleza das inflexões
ou da beleza das sugestões,
quando o melro assobia
ou imediatamente a seguir

VI
Sincelos enchiam a enorme janela
de vidro bárbaro.
A sombra do melro
atravessava-a, de um lado ao outro.
O estado de espírito
traçava na sombra
uma causa indecifrável.

VII
Ó homens franzinos de Haddam
para quê imaginar pássaros doirados.
Não vêem como o melro
passeia em redor dos pés
das mulheres à vossa volta?

VIII
Sei de nobres acentuações
e de ritmos lúcidos inescapáveis;
mas também sei
que o melro está contido
naquilo que eu sei.

IX
Quando o melro voou para fora da vista,
marcou o cimo
de um de muitos círculos.

X
À vista dos melros
voando numa luz verde
até os malabaristas da eufonia
seriam capazes de feitos.

XI
Foi pela estrada até ao Connecticut
num carro de vidro.
Uma vez, ficou varado de medo
Quando confundiu
a sombra dos seus apetrechos
com melros.

XII
O rio já corre.
O melro deve ter começado a voar.

XIII
Ficou noite toda a tarde.
Nevava
e continuaria a nevar.
O melro ficou
nas pernadas do cedro.

Margri disse...

Belíssimas fotos e excelente poema de Junqueiro, que eu não conhecia.

Muito bem concluído com os versos finais: "Há mais Deus com certeza nos cardos secos de um rochedo, que nesta bíblia antiga...Ó Natureza, a única bíblia verdadeira és tu!"

Um abraço

hfm disse...

Gostei destas partilhas belíssimas!

A.S. disse...

"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa, mas a alma voa..."


Permite que sublinhe este trecho!

Belissimo Post!!!

Um beijo...

herético disse...

felizmente há quem lembre Guerra Junqueiro e a "Velhice do Padre Eterno"...

habita na minha memória um "melro cantador" da minha infância que não consigo espantar...

grato pela tua presença.

Luisa disse...

Melros tenho muitos aqui nas relvas das nossas casas. Passam por nós sem medo, não receam perder a liberdade.

M. disse...

"poemas agarrados com as redes largas do pensamento". Muito belo. A tua marca especial.

Maria Manuel disse...

Aviso de nomeação.

:-)

tufa tau disse...

e estes melros tinham o bico amarelo?
só podiam.

Maria P. disse...

Harmonia de imagem e palavras, serena harmonia.

Beijinho*

perola&granito disse...

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Bom fim de semana.Bjossss!

jawaa disse...

Tenho andado um pouco ausente destes lugares onde me encanto muitas vezes. Já uma vez me disseste que os pássaros voam e nós ficamos; não esqueci. Vamos ficando.
As imagens acima e abaixo são belíssimas e o melro... o melro já apareceu no meu canto pq faz tbém parte da minha lição de vida. Aprendi-o quase todo de cor... e bem menina, com meu pai, no tempo em que «A Velhice do Padre Eterno» era um livro proibido.