quinta-feira, junho 21, 2007

Enfim, linhas e livros III








Uma parte importante da minha formação, foi vivida durante a ditadura de Salazar. E é essa miséria cultural e cívica que mais recordo e temo. E tremo, analogias.

De seguida a uma lavagem cerebral pela televisão e vários ganhos publicitários depois, a personagem ficou como paradigma das raízes podres ainda por expurgar das terras mentais e outras. Isto penso exactamente assim.

Há décadas de atraso que nos estão a custar a ultrapassar: nós, os mais velhos, não teremos tempo suficiente para acreditar e viver plenamente"nesta" democracia. Resta-nos falar dela, escalpelizá-la aos que nos seguirão, como uma meta sempre a atingir, mais e melhor.

Com um grupo na "Rota das Árvores Monumentais - Da Cordoaria ao Jardins do Palácio" (voltarei com essas amigas...), acabamos por passar na Feira do Livro e foi esta exposição sobre a Censura que me fez recordar a mesquinha e provinciana cultura desse tempo, infinito e cego. Embora a Igreja sempre o tivesse feito em nome da santidade, estes seres faziam-no em nome da "estupidez" que queriam preservar.
Daí o "Arrepio" no PPP passado.

Os livros circulavam boca a boca, mão a mão. Os que aqui se vêem na lista de Jorge Amado foram emprestados ao meu pai e assim os li todos.
Imagino o "triunfo dos porcos" quando liam e delapidavam a palavra, o livro.
Esteiros, Quando os Lobos Uivam, Deus lhe Pague, O Convento Desmascarado, Felizmente há Luar, O Canto e as Armas, A Selva, A Náusea... os que de repente me ocorrem.

Enredei-me em nojo porque fiz um intervalo para relembrar títulos de há 40/50 anos na Wikipédia. Donde relevo que em cinco séculos de história da imprensa portuguesa, quatro foram dominados pela censura.
Não nomeio mais, portanto.
Só acrescento uma frase de Luíz Gonzaga das Virgens, soldado morto em 1798, em São Salvador, Brasil (citado a partir do livro "O Último Negreiro" de Miguel Real que aconselho vivamente a quem se interessar por História com factos reais):

"A liberdade é a doçura da vida"


22 comentários:

A.S. disse...

Quando o meu pai partiu, há 25 anos, alguns dos livros que referes foi as primeiras coisas que trouxe comigo!... Ainda os conservo religiosamente!


Um abraço!

Anónimo disse...

a liberdade é um doce com travo de consciência. de aprender a "crescer"....


________________por aqui. saúdo o gosto. dos livros. e da memória.



beijo.



(imf/piano)

mac disse...

"E é essa miséria cultural e cívica que mais recordo" / "(...)estes seres faziam-no em nome da "estupidez" que queriam preservar."
E será que isto ainda não se passa? Não assistimos nós, a um estrangulamento dos meios de comunicação social? A TV só serve para estupidificar as pessoas, e não passa muitas das notícias que se lê no jornal. Claro que agora, tens o mundo nas pontas dos dedos; só não nos informamos se não quisermos, mas é 1 pouco ridiculo leres as verdadeiras noticias do teu país nos jornais estrangeiros.

Meg disse...

Palavras que quero e tenho para dizer, já as sabes de cor. Mais títulos, tantos títulos! E com que sensação lhes toco agora, e os releio, a pensar se não terei de os esconder... outra vez.
Beijo grande

Teresa Durães disse...

hoje temos liberdade e o mesmo provencianismo por isso nem tudo se modificou. Os livros estão aí. Cortam-se as verbas na cultura. Os livros estão aí. ~Vê-se televisão. Os livros estão aí. Não se apostam nos novos autores.

Para que estão os livros aí?

beijos

Luisa disse...

Como queria agradecer-te a visita que fizeste ao meu "Verão", aproveitei para dar uma vista de olhos aos teus últimos artigos, sempre magnificamente escritos.Eu também sempre tive a "mania" de ler. Aos 5 anos já lia livros de fadas. Para além da censura oficial, lá em casa havia regras muito estritas quanto ao que se podia ler ou não. Antes dos 12 anos, nem pensar em ler um romance. A partir dessa idade, começava-se com o Júlio Diniz, as irmãs Bronte e Jane Austen e alguns dos nossos clássicos mas nem todos...Eça de Queiroz, por exemplo, era só para adultos. Claro que estávamos autorizadas a ler a Cidade e as Serras...
Vingavamo-nos nos romances policiais e de aventuras que eram considerados inocentes. Só muito mais tarde fui descobrindo com amigos que havia livros escondidos debaixo do colchão e no fundo das gavetas. A censura cortava tudo, até literatura sem nada de subersivo. Eram tão estúpidos e tão ignorantes os nossos censores! Felizmente foram tempos que já passaram.

Luisa disse...

Apenas um comentário sobre as malva-rosas. Sardinheiras, dizes tu. O nome genérico é gerânio.

Cris disse...

Sem dúvida!!! acabei de ler um livro, doloroso, que fala do negócio dos navios negreiros em áfrica e as condições em que as pessoas eram forçadas a viajar e como eram tradadas... Acho que nenhum de nós pode sentir verdadeiramente (ainda bem) a total ausência de liberdade, corpo e espirito.

Bem apanhado

Bom Fim de Semana!

Beijinhos
Cris

o alquimista disse...

O beijo da bruma com a água, é dança de dispersos sonhos, perdidos no silêncio desta baía, por longos e agrestes caminhos. Sentei-me! No peito ausência, a luz não tem hora, a paixão solta de amarras, que teima em não ir embora. Gira a vida em sua roda, invisível, celebro os dons da terra com a aurora, no espelho desta lagoa em arrepio, vejo um conhecido rosto que chora.


Bom fim de semana


Doce beijo

Ana Patudos disse...

Os livros, os livros, esses mensageiros de verdades, sonhos, desejos, promessas, recordações...
Por falar em recordações, abri um pouco o livro das minhas memórias, vai espreitar...
beijos

fica bem
Ana Paula

viajante disse...

Sem saudades nenhumas dos tempos do Senhor de Santa Comba, lembro-me da emoção de, em pleno quartel, ouvir o Zeca, Zé Mário Branco, Fanhais e os poemas lindos de José Carlos Ary dos Santos. Havia Medo mas também aquela alegria de transgredir (na óptica deles).

legivel disse...

... Jorge Amado, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e tantos outros que me abriram o apetite para compreender o que se passava neste país. Todos eles com obras proibidas e sob a vigilância da polícia política do Estado Novo. Além de leitor fui testemunha directa de algumas dessas proibições/apreensões, dado que trabalhei algum tempo numa editora lisboeta.
Os Subterrâneos do Amado, recebi-os via ~correio aéreo (por um tio que estava no Rio) sem qualquer problema, o que provava que a tal polícia cometia erros?! ou não conseguia chegar a todo lado.

Com a distanciação possível, direi que não se volta atrás no tempo e nos métodos. Por muitos concursos televisivos e idiotas que se façam. Embora infelizmente ainda haja uma grossa fatia da população portuguesa manipulável, lentamente a outra vai equilibrando o cenário social. Nos quarenta anos de jugo salazarista, sabe-se que a correlação de forças era completamente desfavorável a uma situação minimamente democrática. E os tempos são outros. Queira-se ou não, melhores. Eu, que sou um pessimista do caraças, se visse a iliteracia banida de vez deste país, já me dava por satisfeito. Porque aí, outro galo cantaria. A falta de exigência pessoal e colectiva e a tolerância que temos para deixar que os "outros" resolvam os problemas que são nossos, levavam uma volta.
A menos que a tradição passadista e fadista se imponha...


Abraço e bom fim-de-semana.

Meg disse...

Ah... esqueci-me de te dizer que comecei com a Condessa de Ségur, mal sabia ler, ainda.
Quantas de nós não começámos por aí?
Bjs

Teresa David disse...

Recordo muito bem os livros de ensino, completamente machistas e facistas onde aprendi a ler, cuja capa tinha um menino vestido da mocidade portuguesa com o braço esticado em jeito de saudação nazi.
Felizmente, mto cedo tive acesso á literatura proibida o que fez que com 12/13 anos já me questionasse sobre o que estava certo e errado, e tivesse escolhido o caminho da liberdade.
Esta, contudo, não é a democraria pela qual lutei e sonhei, mas raramente os sonhos passam disso mesmo, sonhos. A realidade é sempre mais imperfeita e brutal.
Bom fim de semana e mts bjs
TD

Teresa Teixeira disse...

Já nem consigo imaginar o que seria viver sem esta liberdade que temos! Poder ler (como fazer outras coisas) em liberdade é um bem muito precioso!

Tozé Franco disse...

Viva a liberdade de expressão, incluindo a dos blogues.
Um abraço.

herético disse...

beijo. quem poderia dizer melhor?

bettips disse...

Mas que bela reunião livre-lvro aqui fizemos! Obrigado a todos. Cada um à sua maneira exprimiu estados de alma que me são caros. Não podemos perder a memória nem estes lugares que hoje temos! Abraços

Jardineira aprendiz disse...

Eu só conheço esses tempos negros da memória dos outros. Às vezes custa-me a acreditar que a mesquinhice e a pequenez fossem tão óbvias. Porque na realidade elas continuam por aí, disfarçadas com outros nomes. A ditadura da mediocridade também, só que agora voluntariamente aceite.

Donde só posso concluir que essa doce liberdade tem necessariamente que começar dentro de cada um que decide ser livre. Claro que a falta dela, exteriormente imposta, nunca a conheci...

jlf disse...

Como terá sido possível ter-me escapado esta postagem?

E logo esta.
Que montanhas de recordações!

Um dia, a propósito da Ulmeiro, a editora e livraria do Zé Ribeiro e da Lúcia, em Benfica, fiz um post deste género. Com lembranças, muitas.
Ora, se uma parte importante da tua formação foi vivida durante a ditadura salazarenta... Imagina a minha, que tenho mais dez anos!...
O risco enorme que era ser-se ousado e do contra! Mas a força interior era muita.
Até já, ao postigo do quintal.

jawaa disse...

Então e a Velhice do Padre Eterno, o outro Amaro, o Bocage... meu Deus será que os nosso netos terão de ler o Ensaio sobre a Cegueira do nosso único Nobel, na clandestinidade, como eu decorei o melro?
Abraço

blue disse...

obrigada bettips.

fiquei particularmente presa a este post por me identificar imenso com a mensagem transmitida. não vivi muito tempo na ditadura, mas não me esqueci de como era.

e não esquecerei nunca os olhos brilhantes e a voz embargada do meu Pai, no dia 25 de abril de 1974, a dizer:

"agora podemos falar livremente"